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Ética, política e Poética – “Ciências Práticas” em Aristóteles



Como estamos vendo, Aristóteles versa em todas as áreas do conhecimento, mas diferentemente da ciência teórica que é demonstrativa, e que para se “conhecer o mundo” precisa-se demonstrar as causas; no caso da ética não ocorre isso e sim uma deliberação, e saber deliberar é o “saber” no campo da ação. Assim, para Aristóteles, o homem prudente e virtuoso é aquele que delibera bem.

Quanto a ética e a política

A ética e a política estão no campo da deliberação e deliberar bem é saber decidir, a virtude representa o “meio termo”, a justa medida de equilíbrio entre o excesso e a falta de um atributo qualquer. Mas, veremos que Aristóteles distingue a ética da política.

O que são deliberações?

“Deliberações são atividades racionais de descoberta da verdade no campo prático, tendo a estrutura típica de um ato de dar razões e justificar crenças, mas não se reduzem a demonstrações”. Como nos lembra Zingano (2005, p.104)

Aristóteles escreveu muito sobre política, no diálogo perdido Da justiça já se anunciavam alguns dos temas expostos nos oito fragmentos reunidos por Andronico sob o título de Política. Ele escreveu ao longo de toda a sua vida, mas também nesse tema, como em outros diversos, é pouco o que resta sobre o assunto.

Aristóteles foi o primeiro filósofo a distinguir a ética da política, centrada a ética na ação voluntária e moral do indivíduo enquanto tal, e a política, nas vinculações deste com a comunidade. Dotado de lógos, (“palavra”, “discurso”) isto é, de comunicação, o homem é um animal político, inclinado a fazer parte de uma pólis, a "cidade" enquanto sociedade política. A cidade precede assim a família, e até o indivíduo, porque responde a um impulso natural. Dos círculos em que o homem se move, estão a família, a “tribo”, o trabalho e a pólis, mas só este último constitui uma sociedade perfeita. Daí serem políticas, de certo modo, todas as relações humanas. A pólis é o fim (télos) e a causa final da associação humana. Uma forma especial de amizade, a concórdia, constitui seu alicerce.

Os regimes políticos caracterizam-se pela solução que oferecem às relações entre a parte e o todo na comunidade. Há três formas de regimes: monarquia, aristocracia e politéia (um compromisso entre a democracia e a oligarquia, mas que tende à primeira). À monarquia interessa basicamente a unidade da pólis; à aristocracia, seu aprimoramento; à democracia, a liberdade. O regime perfeito integrará as vantagens dessas três formas, rejeitando as deformações de cada uma: tirania, oligarquia e demagogia. A relação unidade-pluralidade aparece, ainda, sob outro aspecto: o da lei e da concórdia como processos complementares.

Aristóteles diz que o homem não é apenas um “animal racional” mas também um “animal político”. Porém essa atribuição se dá aos homens que têm seus direitos políticos e os usam em parte maior ou menor para a administração da cidade ou seja os homens-cidadãos.

Em Ética a Nicômaco Aristóteles diz:

(...) aquilo que é próprio de cada criatura lhe é naturalmente melhor e mais agradável; para o homem, a vida conforme o intelecto (a razão) é melhor e mais agradável, já que o intelecto, mais que qualquer outra parte do homem, é o homem. Esta vida, portanto, é também a mais feliz. (1985, p.203)

Assim, para Aristóteles a verdadeira felicidade do homem só se alcança quando este vive plenamente sua racionalidade e vivê-la significa, viver a nossa “alma racional” e os valores da alma são os valores supremos para Aristóteles.


Poética em Aristóteles

Diferentemente de Platão, que dizia ser a arte apenas uma cópia da cópia por ela copiar algo que já era uma cópia do Mundo das Ideas. Aristóteles não condena a Arte apesar de também reconhecê-la como mimese (imitação da “realidade”), Aristóteles até atribui valor à Arte enquanto “purificador” (conceito de “catarse”), ela liberta das paixões.

Portanto entre as ciências do fazer, ou ciências práticas, apenas a obra de arte mereceu estudo sistemático de Aristóteles. Assim, ele distingue as artes úteis das artes de imitação, sendo que estas últimas, ao contrário do que o nome parece indicar, exprimem o dinamismo criador do homem completando a obra da natureza: ele tem de captar através da ideia o que na natureza se encontra, por assim dizer, apenas esboçado ou latente.

Na Poética, Aristóteles confere grande relevo a sua teoria da tragédia, que exerceu notável influência sobre o teatro desde a época do Renascimento. Segundo sua própria concepção de poesia, salientou a importância da imitação ou Mimese, não como mero decalque da realidade, mas como uma recriação da vida: a tragédia imita "não os homens, mas uma ação e a vida". Também a ação, para Aristóteles, é fundamental: os caracteres devem surgir como sua decorrência, recomendando o filósofo o recurso à ação histórica, tomada de empréstimo para a obra de arte. Preocupado ainda com o efeito da tragédia sobre o espectador, enuncia seu conceito de “Catarse” (cathársis, purificação das paixões), objetivo que, para Aristóteles, é indispensável.

Abraços do Benito Pepe


Próximo tópico: Física e ciências naturais em Aristóteles


Referências bibliográficas deste tópico

Aristóteles. Ética a Nicómaco. Brasília. UnB, 1985.

ZINGANO, Marco. Platão & Aristóteles: o fascínio da filosofia. 2. ed. São Paulo: Odysseus editora, 2005.


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Algumas das “obras” de Aristóteles: a questão da Lógica e da Causalidade


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Aristóteles pode ser considerado o pai da Lógica no mundo ocidental. Nos primeiros séculos da era cristã, os escritos lógicos de Aristóteles foram reunidos sob a denominação de Órganon (já que se considerava a lógica apenas um instrumento da ciência, um órganon). Conforme menciona Chaui:

(...) a lógica é um instrumento do pensamento para pensarmos corretamente. Não se referindo a nenhum ser, a nenhuma coisa, a nenhum objeto, a lógica não se refere a nenhum conteúdo, mas à forma ou às formas do pensamento ou às estruturas do raciocínio em vista de uma prova ou de uma demonstração. (...) A lógica é o que devemos estudar e aprender antes de iniciar uma investigação filosófica ou científica, pois somente ela pode indicar qual é o tipo de proposição, de raciocínio, de demonstração, de prova e de definição que uma determinada ciência deve usar. (2002, p.357)

A Primeira das obras integrantes do Órganon, foi os Tópicos que classificam os diferentes modos de atribuição de um predicado a um sujeito. Cabe destacar ainda nos Tópicos o esboço da teoria do silogismo, que, no entanto, só foi consolidada nos Primeiros analíticos.

“O silogismo é um argumento no qual, certas premissas estando postas delas resulta necessariamente uma conclusão”. Como nos lembra Zingano (2005, p.88).

Essa teoria se caracteriza pelo propósito de demonstrar a correção formal do raciocínio, independentemente de sua verdade objetiva. Assim, se todo B é A e se todo C é B, todo C é A. A primeira proposição é a maior; a segunda, a menor; e a última, a conclusão.

Entretanto é nos segundos analíticos que Aristóteles vai estudar um determinado tipo de silogismo: o silogismo científico, ou seja aquele que tem preocupação com a verdade.

Conforme transcreve Chaui:

“Só há ciência quando conhecemos pelas causas” e acrescenta que este é o lema fundamental de Aristóteles (e de todo o pensamento ocidental), Chaui lembra que no livro I dos segundos analíticos, Aristóteles diz que:

Consideramos que possuímos uma ciência de modo absoluto, e não de modo acidental como nos sofistas, quando julgamos conhecer a causa pela qual a coisa é, sabendo que ela é a causa disso e que é impossível que o efeito seja diferente do que é. (2002, p.346)

Dessa maneira temos que um argumento válido difere-se de um argumento cientificamente válido, ou sólido. Através de sua causalidade e coerência lógica.

Aristóteles distingue quatro sentidos ou dimensões da causalidade:

1. Causa Formal – Trata-se da forma ou modelo, que faz com que a coisa seja o que ela é. Assim responde-se à pergunta: o que é “x”?

2. Causa Material – É o elemento constituinte da coisa, a matéria de que é feita essa “coisa”. Responde à pergunta: de que é feito isso?

3. Causa Eficiente – Consiste na fonte primaria da mudança, o agente da transformação da “coisa”. Responde à pergunta: por que “x” é “x”? O que fez com que “x” viesse a ser “x”?

4. Causa Final – Trata-se do objetivo, do propósito, da finalidade da coisa. Responde a pergunta: para que “isso”?

Vamos dar um exemplo para essas causas usando o próprio exemplo que Aristóteles menciona. Para se fazer uma estátua de uma deusa grega precisamos do mármore, do bronze ou outro material seja argila etc. Esses materiais são como o próprio nome diz as causas materiais, ou seja a matéria que é usada na elaboração da estátua; essa estátua terá uma forma, um desenho, que é a deusa grega, esta é causa formal, a forma da estátua; para se elaborar essa estátua precisamos de um profissional, artesão ou escultor, este é o que dá a forma à Estatua, e esta é a causa eficiente para ela existir; por fim temos o objetivo final porque ou para que ela foi feita e esta é a causa final, que pode ser para se colocar no templo com o propósito do culto, para uma decoração, uma homenagem ou seja lá para qual fim tenha sido elaborada.

A aplicação desta lógica e desta causalidade se refere mais facilmente às coisas do mundo do devir, mas para Aristóteles há uma causa primeira e esta é buscada através da metafísica, que é sumamente a teologia. Segundo Aristóteles, como nos lembra Reale, a metafísica:

a) “indaga as causas e os princípios primeiros ou supremos”;
b) “indaga o ser enquanto ser”;
c) “indaga a substancia”;
d) “indaga Deus e a substancia supra sensível”. (2004, p.195)

Quanto à metafísica falaremos mais em outro tópico.

Abraços do Benito Pepe


Referências bibliográficas deste tópico:

CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles, volume 1. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia, v.1.; tradução de Ivo Storniolo; 2.ed. São Paulo: Paulus, 2004.

ZINGANO, Marco. Platão & Aristóteles: o fascínio da filosofia. 2. ed. São Paulo: Odysseus editora, 2005.


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Obras e "doutrina" de Aristóteles – uma introdução




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Antes de citarmos algumas das obras de Aristóteles precisamos lembrar que havia dois tipos básicos de textos: os escritos para o público em geral, ou seja as obras com o intuito de publicação para “fora da escola”, os escritos “exotéricos”, que eram normalmente em forma de diálogos; e os textos para os alunos do Liceu, ou seja “material de aula”, os “esotéricos”, esses portanto seriam escritos didáticos destinados aos seus discípulos.

Perderam-se quase todas as obras publicadas por Aristóteles, com exceção da Constituição de Atenas, descoberta em 1890. As obras conhecidas resultaram de notas para cursos e conferências do filósofo, ordenadas de início por alguns discípulos e depois, de forma mais sistemática, por Andronico de Rodes (c. 50 a.C.).

Sendo os escritos exotéricos perdidos em grande parte, foram os escritos esotéricos, os que em sua maioria, permaneceram até os dias de hoje. Estes tratam da problemática filosófica e de alguns ramos das ciências naturais.

Quanto às “ciências” ou o “conhecimento”, Aristóteles os divide da seguinte maneira, como está contido no livro, Metafísica, 1025b25:

Os conhecimentos Práticos (práxis); os Produtivos (poiesis) e os Teóricos.

Quanto ao conhecimento Teórico, se divide por um lado em: Física que está no campo das “Ciências Naturais”, e por outro lado em Matemática (quantidade, número) e Filosofia Primeira (teologia) estas duas ultimas estão no campo das “ciências gerais”.

Portanto a filosofia primeira, posteriormente chamada de metafísica, ou ontologia (termo que vem depois, para tratar do ser enquanto ser), inclui a teologia o ser imóvel, a causa primeira, o “primeiro motor”.

Dessa maneira podemos perceber que apesar de sua aptidão à cientificidade, Aristóteles colocava a Física em “segundo lugar”, chamando de filosofia primeira justamente a teologia e a ontologia. Mas quanto a ontologia (= discurso do ser; onto - ser, logia - discurso), para Aristóteles não haveria um discurso único. “O ser se diz em múltiplos sentidos”.

Como nenhum filósofo antes dele, Aristóteles compreendeu a necessidade de integrar o pensamento anterior a sua própria pesquisa. Por isso começa procurando resolver o problema do conhecimento do ser a partir das antinomias acumuladas por seus predecessores: unidade e multiplicidade, percepção intelectual e percepção sensível, identidade e mudança. Problemas fundamentais, ao mesmo tempo, do ser e do conhecimento.

De qualquer maneira para Aristóteles existe um Ser separado da matéria e imóvel, é ele o primeiro motor, o Deus de Aristóteles.


"Diferenças" entre Platão e Aristóteles

Para entendermos Aristóteles é importante fazermos algumas distinções entre ele e seu mestre Platão. Uma das principais críticas de Aristóteles quanto a Platão, consiste na rejeição do dualismo representado pela teoria das ideas, como se vê na Metafísica 1, caps. 6 e 9; XII e XIV.

Uma das questões que Aristóteles levanta é a problemática de se relacionar o mundo material (ou sensível) com o mundo das ideas (o mundo inteligível).

Diferentemente do dualismo platônico, em que o mundo da inteligência era separado do das coisas sensíveis, mas que visava antes de tudo a “salvar a ciência”, estabelecendo a coerência necessária entre o conceito e seu objeto. O realismo de Aristóteles procura restabelecer essa coerência sem abandonar o mundo sensível: explora a experiência, e nela mesma insere o dualismo entre o inteligível e o sensível.

O projeto de Aristóteles visa em última análise restabelecer a unidade do homem consigo mesmo e com o mundo, tanto quanto o projeto de Platão, baseado numa visão do cosmos. Entretanto, Aristóteles censura a Platão por ter seguido um caminho ilusório, que retira a natureza do alcance da ciência. Aristóteles procura apoio na psicologia. O ser existe diferentemente na inteligência e nas coisas, mas o intelecto ativo, que é atributo da primeira (a inteligência), capta nas últimas (as coisas) o que elas têm de inteligível, estabelecendo-se dessa forma um plano de homogeneidade.

Das “diferenças” entre Platão e Aristóteles, Reale nos lembra que:

Nas obras ‘esotéricas”, Aristóteles deixou de lado o componente místico-religioso-escatológico que era tão forte nos escritos do mestre (...) E que (...) Platão tinha interesse pelas ciências matemáticas, mas não pelas ciências empíricas (com exceção da medicina). (2004, p.191-2).

Podemos mencionar também o que lembra Zingano: “Platão, filósofo literário; Aristóteles, argumentador de rara precisão. Platão idealista; Aristóteles, investigador da natureza”. (2005, p.62).

Não obstante ao que foi narrado acima, é bom lembra que, conforme lembra Blackburn:

(...) os acadêmicos, de forma geral, rejeitam que a obra de Aristóteles tenha se afastado de um platonismo originalmente aceito, chegando mesmo a ver em sua metafísica tardia um retorno a Platão. (1997, p.25)

Visto isso podemos agora citar e posteriormente comentar sucintamente algumas das “matérias” do grande filósofo Aristóteles.

As principais obras de Aristóteles, agrupadas por matérias, são:
(1) Lógica (que constituem o Órganon): Categorias (propõe uma classificação geral em dez classes de tudo o que existe), Da interpretação, Primeiros Analíticos (contém a doutrina das inferências silogísticas e representam a parte teórica mais madura da doutrina lógica aristotélica) e segundos analíticos (dizem respeito sobretudo a problemas de filosofia da lógica e de metodologia), Tópicos, Refutações dos sofistas;
(2) Filosofia da natureza: Física, Do Céu, Da geração e da corrupção;
(3) Psicologia e antropologia: Sobre a alma, além de um conjunto de pequenos tratados físicos;
(4) Zoologia: Sobre a história dos animais;
(5) Metafísica: Metafísica (obra mais famosa, contém 14 livros);
(6) Ética: Ética a Nicômaco, Grande ética, Ética a Eudêmia;
(7) Política: Política, Econômica;
(8) Retórica e poética: Retórica, Poética.


Referências bibliográficas deste tópico. A Bibliografia completa será apresentada no final deste texto.


BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1997.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia, v.1.; tradução de Ivo Storniolo; 2.ed. São Paulo: Paulus, 2004.

ZINGANO, Marco. Platão & Aristóteles: o fascínio da filosofia. 2. ed. São Paulo: Odysseus editora, 2005.


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Aristóteles, uma Visão Geral de sua obra e "doutrina"



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Este texto é dividido em partes, esta é a primeira postagem, no final de cada postagem você encontrará um link para a seqüência do texto. Os assuntos apresentados são os seguintes: Comentários Iniciais; Obras e Doutrina de Aristóteles – uma introdução; A questão da Lógica e da Causalidade; Ética, Política e Poética; Física e Ciências Naturais; a Astronomia de Aristóteles; Metafísica; e o Cristianismo (o tomismo).


1.1 Comentários Iniciais

Pelo rigor de sua metodologia, pela amplitude dos campos em que atuou e por seu empenho em considerar todas as manifestações do conhecimento humano como ramos de um mesmo tronco, Aristóteles foi o primeiro pesquisador científico no sentido atual do termo.

Mais do que qualquer outro pensador, Aristóteles determinou a orientação e o conteúdo da história intelectual do Ocidente. Durante séculos seu sistema filosófico e científico mediou o pensamento Cristão e Islâmico, e até o fim do século XVII o mundo ocidental foi aristotélico, como veremos neste texto e especialmente no tópico “A Astronomia..”, através do sistema Geocêntrico, defendido por Aristóteles.

Aristóteles criou uma vastíssima ontologia, ou teoria da natureza e relações do ser, na qual as substâncias interagem de várias maneiras para produzir objetos que diferem em propriedades como quantidade, qualidade, tempo, posição e condição de ação. A partir dessa ontologia, Aristóteles desenvolveu uma “filosofia da natureza” em que a matéria sofre processos de mudança dinâmica e espontânea que são, por sua vez, mediados por princípios preexistentes de forma e estrutura.
Elaborou então uma hierarquia de existências que começam com os quatro corpos primários (terra, água, fogo, ar), os quais formam substâncias inorgânicas e, depois, os seres vivos: as plantas apresentam as funções de crescimento, nutrição e reprodução; os animais possuem, além dessas, as de sensação, desejo e locomoção; e os seres humanos, a faculdade da razão. Com sua “alma racional”, o homem pode exercer a suprema atividade, a obtenção do conhecimento.

Aristóteles nasceu em Estagira (donde ser dito "o Estagirita"), Macedônia, em 384 a.C. Isso pode parecer insignificante mas tem importância pelo fato de ele ser um “caipira”. Ele era de uma região agrícola, e não uma área portuária como Atenas. Aristóteles era de família de médicos, provavelmente por esse motivo grande parte de sua obra, sejam tratados de biologia.

Desde de jovem com 17 anos ingressa na Academia de Platão, e lá permanece por 20 anos, enquanto Platão viveu. Na Academia Aristóteles conheceu famosos cientistas entre eles o célebre Eudóxio.

Depois da Morte de Platão (seu grande mestre) sai de Atenas para onde regressa em 335. Quando volta a Atenas, funda o Liceu, “sua escola”, já com 50 anos de idade e tornado um pesquisador e filósofo maduro. Durante 13 anos dedicou-se ao ensino e à elaboração da maior parte de suas obras.

Aristóteles foi preceptor de Alexandre o Grande, o que lhe acarretou um certo problema com Atenas. Houve uma revolta contra os macedônios. Com a morte de Alexandre (323), Aristóteles teve de fugir à perseguição dos democratas atenienses, refugiando-se em Cálcide, na Eubéia, onde morreu em 322 a.C. no exílio.

Após a morte de Aristóteles, a escola peripatética (do grego peripatós = “passeio”, como também era chamado o Liceu pelo fato de Aristóteles ministrar seus ensinamentos passeando pelos jardins), dedicou-se a investigações científicas. A filosofia do Liceu foi retomada por discípulos como Teofrasto de Eresso e Eudemo de Rodes, que editou os escritos éticos do Corpus aristotelicum.

Depois da redescoberta e exegese das obras de Aristóteles por Andronico de Rodes, por volta do ano 50 a.C., o pensamento aristotélico foi objeto de muitas exposições e comentários no mundo greco-romano. Com a queda do Império Romano, as obras de Aristóteles se perderam no Ocidente, mas foram preservadas por sábios e exegetas árabes, siríacos e judeus, entre os quais há que destacar Avicena e Averroés.
Com efeito, entre os séculos IX e XIII, a filosofia islâmica fundou-se em várias interpretações do pensamento aristotélico. Os muçulmanos mantiveram vivo o legado de Aristóteles e o devolveram à Europa nos séculos XII e XIII, quando Tomás de Aquino faria do aristotelismo o alicerce filosófico da teologia cristã.

A força do aristotelismo declinou com a afirmação da ciência moderna, mas ainda afeta de modo sutil a orientação do pensamento ocidental. Na contemporaneidade, por exemplo, serviu de ponto de partida para a "psicologia descritiva" de Franz Brentano e contribuiu para a fenomenologia de Edmund Husserl. Reponta ainda no neotomismo.

Dá-se o nome de aristotelismo à atividade e ao pensamento das escolas filosóficas que se inspiraram na obra de Aristóteles. O Estagirita desenvolveu uma forma de raciocinar baseada no silogismo, pelo qual duas premissas básicas (a maior e a menor) levam a uma conclusão. Para definir essas premissas básicas, usou o raciocínio indutivo. Dominou um enorme volume de dados empíricos nas ciências naturais, e grande parte de seus textos são descritivos.

Nos próximos tópicos veremos: um pouco de sua Obra e Doutrina; Lógica; Metafísica; Ética e Política; Poética; Física e Ciências Naturais; a Astronomia de Aristóteles; e, o Cristianismo (o tomismo).

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Próximo tópico: Obras e "doutrina" de Aristóteles – uma introdução



Bibliografia


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Texto Completo da “Alegoria da Caverna” contido no Livro “A República” de Platão



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Apresento aqui o texto completo referente à Alegoria da Caverna de Platão, esta é uma tradução de Enrico Corvisieri publicada na coleção “Os Pensadores”.

O diálogo é entre Sócrates e Glauco, escrito por Platão...


Sócrates - Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco - Estou vendo.

Sócrates - Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que o transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e dos seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica de fronte?

Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco - É bem possível.

Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco, sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco - Sim, por Zeus!

Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados.

Glauco - Assim terá de ser.

Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco - Muito mais verdadeiras.

Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco - Com toda a certeza.

Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e a sua luz.

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Por fim, suponho eu, será o Sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal como é.

Glauco - Necessariamente.

Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates - Ora, lembrando-se da sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que aí foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples criado de charrua, a serviço de um pobre lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco - Sou da tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco - Por certo que sim.

Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que os seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se a alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco - Sem nenhuma dúvida.

Abraços do Benito Pepe


Link relacionado
A Alegoria da Caverna...


Bibliografia

PLATÃO. A República. (trad. Enrico Corvisieri) São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Col. Os Pensadores).

Recomendo também para quem quiser ter este livro “A Republica de Platão”, e que pode ser adquirido facilmente e com um bom preço, o texto integral da Martin Claret, é o número 36 da Coleção “A Obra Prima de Cada Autor”.


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Parmênides e Heráclito



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Parmênides e Heráclito são dois dos “filósofos” chamados pré-socráticos, aqueles que vieram antes de Sócrates, na verdade essa distinção não é tão cronológica e sim “ideológica” ou melhor ligada ao “objeto de seus estudos”. Estes nomes: Parmênides e Heráclito, são dois nomes dos quais não podemos deixar de considerar e estudar profundamente. A base do pensamento ocidental certamente tem muito apoio em seus pensamentos.

Comumente declaram-se opostos os pensamentos de Parmênides e Heráclito. Enquanto para Parmênides o Ser não é gerado, é imóvel, imutável, incorruptível, igual, esferiforme e uno; para Heráclito não há o imutável, tudo flui “não se pode entrar no mesmo rio duas vezes” na segunda vez nem o rio nem você são os mesmos... Mas é claro que notamos, se prestarmos bastante atenção, algumas afinidades em seus pensamentos. Numa interpretação mais aprofundada dos fragmentos de Heráclito e Parmênides, podemos achar um mesmo todo para os dois e esta oposição entre suas visões do todo passa a ser cada vez menor.
Assim não há efetiva oposição entre Heráclito e Parmênides, já que o primeiro fala do cosmo em mudança incessante, ao passo que o segundo se refere ao “ser supracósmico”, o princípio supremo subtraído à mudança, que coincide com o logos de Heráclito.

Outro ponto importante é como ambos vêem o sensível ou os sentidos.

Parmênides

Parmênides nasceu em Eléia (atual Velia, entre Punta Licosa e Cabo Palinuro no sul da Itália), viveu entre o século VI e V a.C, cria a chamada escola Eleática (que vem de Eléia) e que transmite grande influência ao pensamento grego. Quanto a filosofia da Physis é um inovador radical, com ele a cosmologia recebe um profundo abalo do ponto de vista conceitual, transforma-se em uma Ontologia (teoria do ser).

Assim como outros pensadores pré-socráticos, Parmênides enfrentou uma questão central: a busca de um princípio, ou arché, subjacente a todas as coisas, e a determinação de um traço de união entre esse princípio e a realidade do mundo físico, em constante mutação. Para Parmênides, tudo o que existe constitui uma única realidade: o ser, que ele identifica com o pensamento, uma vez que só se pode pensar sobre aquilo que existe.

È um dos primeiros racionalistas. Racionalista é aquele que acredita que a fonte primária do “conhecimento” do mundo está na Razão.

O Caminho da verdade (alétheia) e o caminho da opinião (dóxa)

Parmênides em seu poema Sobre a Natureza, onde diz ter sido guiado pelas éguas em um “carro” veloz em companhia das filhas do Sol, e é levado até onde o seu desejo quer chegar, defronta-se com várias vias (caminhos), que lhe são mostrados pela deusa (que simboliza a verdade que se revela). Estas três vias são:

1) a da verdade absoluta;
2) a das opiniões falazes (a doxa falaz) – a falsidade e o erro;
3) a outra via é a da opinião plausível (a doxa plausível).

O primeiro Caminho mostra que “o ser é e não pode não ser; o não ser não é e não pode ser de modo nenhum”.

Desta maneira é delimitada a via da “verdade absoluta” (a via do ser) em oposição com a “falsidade” (a via do não ser).

Assim tudo aquilo que se pensa e diz, é. Pensar e ser é o mesmo, não se pode dizer o não ser. Daí aponta-se a primeira formulação do principio da não contradição (principio que afirma a impossibilidade de que os contraditórios coexistam ao mesmo tempo) por exemplo uma “coisa” não pode ser algo e ao mesmo tempo outra: uma parede não pode ser Azul e Amarela ao mesmo tempo; podemos afirmar que ela não seja Amarela, mas não dizer o indizível.

A visão de Parmênides é mais ampla do que se pode pensar em principio “este” ser é “não-gerado” e “incorruptível”. Se fosse gerado teria que derivar de um não ser, o que seria absurdo, dado que o não-ser não existe, ou teria que ter derivado do ser o que também seria absurdo porque ele já existiria. Por essas razões é impossível que o ser se corrompa. Então o ser não tem um passado nem um futuro é um eterno presente. Como dissemos no inicio deste texto: o Ser não é gerado, é imóvel, imutável, incorruptível, igual, esferiforme e uno.

O segundo Caminho mostra que a verdade é o caminho da Razão (a senda do dia) e o caminho dos sentido é o caminho do erro (a senda da noite) os sentidos nos mostram movimentos, o nascer e morrer, assim a deusa alerta a Parmênides para não se deixar levar pelos enganos dos sentidos e pelos hábitos que eles criam.

“Afasta o pensamento desse caminho de busca e que o hábito nascido de muitas experiências humanas não te force, nesse caminho, a usar o olho que não vê, o ouvido que retumba e língua: mas, com o pensamento, julga a prova que te foi fornecida com múltiplas refutações. Um só caminho resta ao discurso: que o ser existe”.

O terceiro Caminho é o das “aparências plausíveis” na segunda parte do poema a deusa faz uma exposição do “ordenamento do mundo conforme ele aparece”.

Segundo Parmênides os opostos se devem pensar como incluídos na unidade superior do ser: ambos os opostos são “ser”. Parte assim para a dupla de opostos: “luz” e “noite” e etc.

Está claro que assim como o não-ser estava eliminado, também estava eliminada a morte, que é uma forma de não-ser.

Para Parmênides a obscura “noite” (o frio) em que o cadáver se encontra não é o não-ser, isto é, o nada; por isso o cadáver permanece no ser e , de alguma forma, continua a sentir e, portanto, a viver...

Para alguns estudiosos: Parmênides fundou a metafísica ocidental com sua distinção entre o Ser e o Não-Ser.

Fixando sua investigação na pergunta: “o que é”, ele tenta vislumbrar aquilo que está por detrás das aparências e das transformações.


Heráclito

Heráclito viveu entre os séculos VI e V a.C, ou seja foi contemporâneo de Parmênides. Nasceu em Éfeso, escrevia através de aforismos e intencionalmente de forma obscura “para que deles se aproximassem apenas aqueles que conseguissem”, seu estilo lembrava as sentenças dos oráculos, era chamado “Heráclito o obscuro”.

Heráclito, ao contrário de Parmênides, vai dizer que tudo flui. Se Parmênides era o filósofo do ser, Heráclito era o do vir-a-ser, do devir. Para ele, tudo está em contínuo movimento, ou seja, tudo flui.

“Tudo se move, ‘tudo escorre’ (panta rhei), nada permanece imóvel e fixo, tudo muda e se transmuta sem exceção”. A famosa frase de Heráclito para justificar seu pensamento é: “Não se pode descer duas vezes no mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substancia mortal no mesmo estado (...) Nós descemos e não descemos pelo mesmo rio, nós próprios somos e não somos.”

A “harmonia dos contrários” em Heráclito está no sentido de que há uma continua passagem de um contrário ao outro: as coisas frias se aquecem, as quentes se esfriam; daquilo que está “morto” nasce outra vida nova (como é o caso da “semente” de uma árvore). A harmonia dos contrários também se nota no Arco e na Lira.

"A doença faz da saúde algo agradável e bom", ou seja, se não houvesse a doença, não haveria porque valorizar-se a saúde.

O “principio” (a arché) com o fogo e com a inteligência. O fogo expressa as características de mudança continua, o contraste e a harmonia. O fogo está em continuo movimento, é vida que vive da morte do combustível...

Segundo Heráclito, o fogo é o elemento primordial de todas as coisas. Tudo se origina por rarefação e tudo flui como um rio. O cosmos é um só e nasce do fogo e de novo é pelo fogo consumido, em períodos determinados, em ciclos que se repetem pela eternidade.

Em seu livro – “Do Céu”, Aristóteles escreve: “Heráclito assevera que o universo ora se incendeia, ora de novo se compõe do fogo, segundo determinados períodos de tempo, na passagem em que diz – Acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas.”

O fogo é como “raio que governa todas as coisas”. E o que governa todas as coisas é “inteligência” é “razão”, é “logos”, é “lei racional” É preciso precaver-se quanto às opiniões dos homens, que estão baseadas nas aparências. É preciso estar atento em relação aos sentidos, pois eles “apenas” mostram a aparência das coisas...

A “natureza da alma e o destino do homem”. Heráclito interpreta a alma como fogo dando-lhe uma dimensão infinita, a idéia órfica de que a vida do corpo é mortificação da alma e a morte do corpo é vida da alma, é uma das idéias dos Órficos acolhidas por Heráclito, assim também ele acreditava em castigos e prêmios depois da morte, em suas palavras: “Depois da morte, esperam pelos homens coisas que eles não esperam nem imaginam”.

“O Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, saciedade-fome; mas se alterna como o fogo, quando se mistura a incensos, e se denomina segundo o gosto de cada um.”

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Bibliografia

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia, 7v.; tradução de Ivo Storniolo; 1.ed. São Paulo: Paulus, 2006.

Wekepédia Pt (a enciclopédia livre)

Barsa Planeta Internacional

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A Alegoria da Caverna de Platão – Livro VII da República



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Esta alegoria, também chamada Mito da Caverna foi escrita por Platão século IV a.C, está contida no livro VII da Republica de Platão. É Leitura imprescindível para todas as pessoas de qualquer área de atuação.

Prefiro usar a palavra “Alegoria” pois penso que demonstra mais claramente o objetivo de Platão. A Palavra mito pode lembrar algo não tão representativo ou até mesmo “mentira” se considerada com o uso contemporâneo, e na realidade se usássemos o Mythos com o sentido ainda remanescente na época de Platão poderia se confundir ainda mais, tendo em vista que o Mythos Grego tinha uma força muito especial na Cultura de então. (para saber mais sobre mythos leia Do mito à Filosofia...). Portanto vamos a Alegoria da Caverna! Mas antes recordemos um pouco quem foi Platão.

Platão viveu em Atenas (427-347 a.C), era de família Nobre, seu nome verdadeiro era Arístocles, mas seus “ombros largos” deram-lhe o apelido que tem o Significado da palavra “Platão”. Ele foi discípulo de Sócrates (considerado por Platão, e por outros, como o homem mais sábio e justo de então). Platão fundou a famosa Academia uma espécie de universidade pioneira dedicada à pesquisa científica e filosófica e um centro de formação política. Desenvolve a Teoria das Idéias onde menciona que o processo do conhecimento se desenvolve por meio da passagem progressiva do Mundo das Sombras e Aparências para o Mundo das Idéias e essências.

Para Platão, somente os filósofos, amantes da verdade, teriam condições de libertar-se da Caverna das ilusões e atingir o mundo luminoso da realidade e sabedoria.

Quando falamos dessa Alegoria podemos destacar alguns pontos que normalmente não são tão bem lembrados. Por exemplo: a questão dos Paradigmas e a questão do “conhecimento”. (veremos isso mais à frente)

Podemos dividir e entender esta alegoria da Caverna em três etapas:

1.1. - o ambiente, o local e a situação em que se encontram as pessoas.
1.2. – a libertação dolorosa e a saída também dolorosa da caverna.
1.3. – o retorno à caverna - a educação - o desejo de repassar o conhecimento deslumbrado.

Outros pontos que podem ser lembrados: o prisioneiro que escapa pode ser Sócrates; quando ele retorna e tenta libertar os outros presos, demonstra o que deve fazer um bom político, um bom governante, ou um bom educador como queiram. Todos esses sentidos estão subjacentes no diálogo.

Vamos agora ler Platão através de seu texto adaptado e narrado por Marilena Chaui. Depois faremos novas considerações.


A Alegoria da Caverna

Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior.

A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.

Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.

Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam, porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda luminosidade possível é a que reina na caverna.

Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.

Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.

Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.

Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe, alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidisse sair da caverna rumo à realidade.


Algumas considerações da Marilena Chaui

O que é a caverna? O mundo em que vivemos. Que são as sombras das estatuetas? As coisas materiais e sensoriais que percebemos. Quem é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo. O que é a luz exterior do sol? A luz da verdade. O que é o mundo exterior? O mundo das idéias verdadeiras ou da verdadeira realidade. Qual o instrumento que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros? A dialética. O que é a visão do mundo real iluminado? A Filosofia. Por que os prisioneiros zombam, espancam e matam o filósofo (Platão está se referindo a condenação de Sócrates à morte pela assembléia ateniense) (?) Porque imaginam que o mundo sensível é o mundo real e o único verdadeiro.

Bem, amigo leitor, podemos perceber claramente que a Caverna é o mundo como nós o vemos, muitas vezes com nossos pré-conceitos, paradigmas e dogmatismos, “conhecemos” apenas a “nossa caverna” e achamos que tudo e o todo está contido ali. Imagine um homem de uma tribo no meio da Floresta amazônica que nunca saiu de lá de sua tribo, nunca viu nem assistiu uma Televisão (aliás ele não perdeu nada por isso, muito pelo contrário...) ele só conhece o seu mundo a sua caverna. Nós somos assim quando através de “achismos” e crendices mirabolantes que nos são passadas, acreditamos ser os donos da verdade, e não ouvimos nada e mais ninguém.

Outro paralelo interessante à Alegoria da Caverna é o próprio exemplo da televisão, imagine pessoas que vivem só encarando uma televisão com suas “informações”, novelas e programas de auditório etc. Essa é uma Caverna. É preciso “abrir a mente”, pensar, refletir, questionar, enfim Estudar Filosofia! Não podemos ver sem refletir, não sejamos como os presos da Caverna de Platão, que quando apareceu um “libertador” quiseram o matar.


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links Relacionados:

Texto completo da Alegoria da Caverna

Do mito à Filosofia...

A Indústria Cultural...


Bibliografia

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 13.ed. São Paulo: Ática, 2005.

PLATÃO, A república. São Paulo: Martin Claret, 2007.


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A origem do Universo e da Vida (há vida só aqui na Terra?)



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Quando falamos em Universo e Vida vem à nossa mente de forma inevitável a pergunta: Estamos sozinhos no Universo ou há vida em outros lugares além do Planeta Terra?

Vou colocar para reflexão inicial uma frase de Carl Sagan: - "Às vezes acredito que há vida em outros planetas às vezes eu acredito que não. Em qualquer dos casos, a conclusão é assombrosa." Em outras palavras: Da mesma maneira é fascinante, pensarmos que estamos sozinhos neste universo ou pensar que haja outras vidas em outros planetas ou “corpos” celestes no cosmos...

Amigo leitor só há essas duas possibilidades estamos sozinhos no cosmos e isso seria um “desperdício de espaço” incrível, ou estamos acompanhados. Não é realmente fascinante qualquer que seja a situação?

Bem, vamos começar. Primeiramente temos que entender o que é Universo e o que é Vida.
O que você acha que é o Universo? O que você pensa que é Vida?

Universo é tudo o que existe (ponto). É isso mesmo, para que não haja dúvida e falem em Universos paralelos, outras dimensões etc. Portanto tudo o que houver é o Universo.

Para se falar em o que é “Vida” já é mais complicado, no entanto podemos dar algumas características pelo que a ciência conhece nos dias de hoje sobre o que seja vida: em princípio “toda vida tem que ter células”, aliás a célula bacteriana foi provavelmente a primeira forma de vida no Planeta, daí teríamos tido uma evolução e diversas outras formas de vida foram surgindo saindo inicialmente do Mar. Esse é um fato aceito pela maioria dos estudiosos da origem da Vida.

É fato também que a vida é uma soma de outras vidas, como sabemos nosso organismo é composto por células. Interessante também é lembrarmos que muitos dos seres vivos animais devoram outros seres vivos para Viver, e é o nosso caso: nos alimentamos de outros animais.

Entretanto, filosoficamente falando, com relação ao homem abrimos um outro ponto: o homem é um ser diferente, pois é um ser que pensa o Ser. É um ser que pensa a existência, pensa a vida, pensa a morte, pensa o cosmos. Essa é sem dúvida uma experiência que poucos seres no universo têm, ou seremos só nós? Ao menos no Planeta terra, somos só nós.

Desenvolvemos: “Conhecimento Vulgar”, Cultura, Religião, Filosofia, Ciência. E com o desenvolvimento de nossa capacidade de emitir sons, falar, através de um canal de nosso aparelho digestivo: a boca; pudemos desde tempos remotos transmitir “conhecimentos”; depois desenvolvemos a Escrita Cuneiforme (4000 a.C) o alfabeto (+ ou – 1000 a.C) e assim passamos a disponibilizar de maneira “eterna” nossos “conhecimentos” para todas as gerações; desenvolvemos a imprensa com Gutenberg (séc XV) e assim multiplicamos os leitores; e por fim agora com a Internet distribuímos o “conhecimento” de uma maneira inimaginável até então.

Voltemos ao tema: Vida! Não podemos determinar claramente o que é vida. Há grupos místicos ou religiosos que afirmam que a vida está em tudo.... não podemos esquecer o transcendente ainda que filosoficamente. Devemos ter grande respeito ao que nos transcende: o Universo nossa origem cósmica (somos poeiras das estrelas). A terra, muito menos ela, pode ser desprezada. Somos parte da natureza quanto a isso não há dúvida, temos em nosso organismo vários dos componentes contidos no planeta Terra: Oxigênio (65%), Carbono (18,5 %), Hidrogênio (9,5%), Nitrogênio (3,2%), e tantos outros metais encontrados na natureza.

Por que somos poeira das estrelas? Bem, o fato é que sabemos que nebulosas formam estrelas e as “poeiras” que darão origem àquela estrela podem ter sido já o resíduo (a poeira) de outras estrelas. Cada estrela que “morre” deixa elementos mais pesados que a anterior, cada nova geração tem portanto as condições e quantidades maiores de elementos químicos que podem possibilitar a Vida. O nosso Sol por exemplo é de terceira geração ou seja morreram antes dele surgir duas gerações de estrelas que deixaram elementos químicos mais pesados uma para as outras e que possibilitaram a vida nesse resíduo de “poeira” que desenvolveu a nossa Estrela, o Sol e o Planeta Terra.

Como diz Andreeta:

Sabemos que tudo o que existe no nosso universo (e também nós mesmos) é constituído de minúsculas partículas de matéria e de energia, e que forças naturais atuam sobre essas partículas, aglomerando-as para formar tudo o que existe. Porém, hoje não existe mais distinção entre matéria e energia. Segundo Einstein, matéria e energia são dois estados diferentes de uma mesma “substancia quântica universal”. Os conhecimentos científicos atuais parecem, portanto, convergir com os da filosofia antiga, que afirmam que tudo o que existe deve provir de uma única fonte. (2004, p.9).

Há um ponto que precisamos refletir quanto a nossa origem e quanto à natureza e o nosso esquecimento de imanência (pertencimento) a ela. Para corroborar com esse pensamento cito um trecho que menciono no tópico: A Astronomia e o Esquecimento do Céu, também postado por mim. Brockelman diz:

O que perdemos, portanto, foi a habilidade de ver nossa vida como parte de uma ordem e uma realidade mais amplas, para além de nossos transitórios desejos e sonhos diários. Ao ver a natureza e todo o universo como uma “matéria” posta aqui para nossa transformação e uso infinitamente produtivos, reduzimos a realidade a um mero valor extrínseco para nós; ela não é mais vivenciada como intrinsecamente valiosa em si. Por conseqüência, perdemos todo senso de pertencer a um drama e a uma realidade mais vastos e significativos. (2001, p.23)

Quanto a essa questão da origem do universo e/ou da vida, há diversos “grupos” espalhados pelo planeta que em épocas distintas da história da humanidade tiveram e têm seus próprios “mitos” de criação (quando falo em mito refiro-me a palavra grega mythos, que tem um sentido muito mais amplo). Vide o nosso exemplo do mundo ocidental com origem Judaico-Greco-Romana-Cristã. Não vamos entrar nesse ponto, até porque este não é um artigo religioso, mas quero lembrar que são inúmeros estes relatos da origem do Universo e da Vida. Mas, no mínimo, devemos respeitar os nossos antepassados e as idéias quanto ao Criacionismo.

Falando “cientificamente” temos em uma Linha do Tempo da Criação:

No “inicio” era a Singularidade infinita (um ponto - há 13,7 bilhões de anos atrás);

Nos primeiros micro-segundos as forças gravitacionais e nucleares se separam;

Entre 1 e 3 minutos a Matéria surge em partículas, juntamente com o hélio e o hidrogênio;

300.000 anos depois: hidrogênio e hélio formam nuvens encaroçadas;

Entre e 1 e 5 bilhões de anos: forma-se cerca de 50 bilhões de galáxias;

8 bilhões de anos depois surge o Sol e os planetas do sistema solar;

Alguns bilhões de anos depois surge a Vida na Terra, no inicio apenas formas microscópicas;

Entre 3 e 4 bilhões de anos atrás: DNA, fotossíntese, e regeneração sexual;

Há 700 milhões de anos surgem as criaturas multicelulares no oceano;

Há 550 milhões de anos os primeiros moluscos de concha aparecem, também novas formas de vida marinha como peixes e animais mamíferos surgirão daí;

400 milhões de anos, a vida emerge do oceano;

Há 235 milhões de anos, aparecem os dinossauros; [há 65 milhões de anos são extintos os dinossauros que viveram aqui durante 170 milhões de anos – nós só estamos aqui há 2 milhões.].

Há 216 milhões de anos, aparecem os primeiros mamíferos;

210 milhões de anos atrás, ocorre a ruptura da pangéia e formação de continentes;

2,8 milhões de anos surgem os primeiros humanos: Homo habilis.

1 milhão de anos – o Homo erectus.

Entre 200 e 300.000 anos atrás – Arcaico Homo sapiens.

Hoje “a ciência vê o Todo na nova cosmologia”.

Em se falando em “ver o Todo”, não poderíamos deixar de mencionar a física quântica e quanto a isso cito o que diz Andreeta:

Vistos no plano atômico, todos os corpos que constituem o universo do ser humano possuem um comportamento dinâmico de troca de partículas. Os átomos que estão agregados aos corpos não são permanentes. Eles fluem constantemente através dos corpos sólidos: a pedra e o corpo físico humano compartilham os mesmos átomos. (...) Como os átomos fluem constantemente de um corpo para outro, a separação entre os corpos é, portanto, ilusória. Mesmo que o ser humano queira, não pode se isolar dela e de nada. (2004, p.20).

Bem amigo leitor, uma coisa é certa: o milagre de ser é impressionante. Apesar de nem sempre termos sido o que somos hoje, nós Somos! E no amanha... o que Seremos?

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Links relacionados com esta postagem:

A Astronomia e o Esquecimento do Céu.

A Estrada do Tempo e da Vida.

O Universo é Finito?

Do Mito à Filosofia, o Caso da Astronomia.

Considerações finais quanto ao texto “A Filosofia e a Astronomia: instancias em que o thauma aparece”


Referências Bibliográficas:

ANDREETA, José Pedro. Quem se atreve a ter certeza? : a realidade quântica e a filosofia. 1. ed. São Paulo: Mercuryo, 2004.


BROCKELMAN, Paul. Cosmologia e criação: a importância espiritual da cosmologia contemporânea. 1.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001.


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O que é filosofia? O que faz um filósofo? Para que estudar filosofia?



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Sentir o que é filosofia talvez seja mais fácil do que falar o que é filosofia. De qualquer maneira vamos explanar um pouco este tema.

Poderíamos dizer que filosofia é pensamento; é reflexão; é questionamento. Mas também é produção. Sim é produção a partir do momento que entendamos o que significa produção. Produção é modificar algo em outro algo (ou um ser em outro ser). Por exemplo, quando tomamos alguns insumos como: aço, borracha, plástico e outros derivados e os transformamos em um automóvel, isso é produção. Quando ampliamos um pensamento e transformamos um ser humano em um ser melhor e mais culto, isto é produção.

No entanto quando falo em produção aqui neste contexto refiro-me a produção-modificação que a filosofia “propiciou e propicia” na face do planeta terra. A modificação ocorrida no pensamento do mundo ocidental na Grécia antiga e precisamente a partir do final do século VII e início do VI a.C se deve à filosofia, e teve seu começo em Tales da colônia grega de Mileto por isso chamado Tales de Mileto. Este filósofo e outros tantos deste período da história da filosofia (filósofos da natureza) estavam insatisfeitos com as explicações que eram dadas pelos “deuses gregos” sobre os fatos ocorridos na natureza. Os fenômenos naturais deveriam ser explicados pela própria natureza e não pelos deuses, pensavam eles.

Filosofar é correr riscos, quando queremos produzir pensamentos que sejam manifestados, devemos estar abertos às críticas. Quem não expõe um pensamento, não corre risco, mas continuará dentro da sua casca de ovo (dentro da sua caverna). Não sairá para conhecer o “lado de fora” e nem possibilitará a outros que o façam.

Jean-Toussaint Desanti, prefaciando o livro: Uma história da Razão de François Châtelet escreve falando sobre Châtelet que ele...

Não guardava nada só para si, nem sua força vital, nem seu pensamento, nem seu saber. François era o homem da doação. Por isso, eu o chamo “filósofo”, no sentido primeiro da palavra. De fato, que é a filosofia, a não ser essa obstinação no dispêndio do pensamento, que reúne, exprime e oferece em partilha, dando assim, sempre e sem cessar, “algo para pensar” a quem quiser ouvir?

Jean, continua dizendo:

... a filosofia é no fundo uma atividade corporal e prática. E é preciso que assim seja, pois o filósofo só pode atingir o outro, com sua palavra, expondo-se a si mesmo como sujeito falante, sujeito visível e, em última análise, público.
Assim, ele tem que assumir os riscos dessa posição. Isso significa aceitar expor-se diante das circunstâncias e para o público em plena luz. Nada de retirar-se comodamente para o gozo altivo de um pensamento solitário.(p.7-8)

Muitas vezes é mais cômodo ficarmos dentro de nossa caverna... porém a filosofia desde seus primórdios mostra o contrário, é preciso sair, ir às praças públicas, escrever, publicar, falar... enfim é preciso pensar.

Os maiores questionamentos da humanidade são questões filosóficas. Mas há um “problema”, é que o pensamento, a filosofia pode desafiar nossas crenças mais profundas e fundamentais.

Questões como: Deus existe ou não, são crenças filosóficas. Se você acredita ou não é da mesma maneira uma questão de fé, estará fora da razão dizer sim eu creio ou não eu não creio. Outras questões não menos importantes dizem respeito ao cosmos. Como ele surgiu? Por que existimos? Por que morremos? Estas e tantas outras questões foram e são minuciosamente examinadas por filósofos, pensadores.

Nos dias de hoje questões como o aborto, direitos dos animais, direitos humanos, direitos das crianças, questões ambientais, ética nas profissões, guerras, liberdade de expressão, células tronco, etc. são todas questões de importante dimensão filosófica. “Só por isso” já teríamos um bom motivo para estudar filosofia. Pessoas que não reflitam sobre temas de tal magnitude não estão preparadas ou melhor estão em desvantagem para conviver nessa sociedade e confrontar o que é “verdadeiro”.

Os filósofos questionam fundamentos. Aliás as crianças também o fazem, todos nascemos filósofos e com o passar do tempo “esquecemos” de ser filósofos, esquecemos de perguntar, achamos que sabemos tudo, criamos fundamentos, temos crenças que nos foram ensinadas e a tomamos como uma verdade absoluta. Com nossos fundamentalismos achamos que as coisas são óbvias. Paramos de questionar.

Deveríamos nos lembrar de Sócrates quando dizia: só sei que nada sei. E por isso estava aberto ao aprendizado, ao questionamento, ao novo... ao lado de fora da caverna.

Mas o pensamento, o questionamento pode nos dar vertigem intelectual e assim o nosso chão a nossa base pode sair do lugar e com isso podemos sofrer com a perda do nosso apoio. É por isso que muitos preferem não pensar sobre tantas questões filosóficas, preferem ficar onde se sentem seguros.

A pesar de tudo, desse “sofrimento” intelectual é que os “avanços” da humanidade e o “conhecimento” científico ocorrem. E foi e é através da dúvida sobre o que muitos tomam como certo, que outros, com a mente aberta e questionadora estão prontos para a produção. Temos como exemplo Einstein no século XX que revoluciona o conhecimento da Física gravitacional com a teoria da relatividade.

No entanto não ficam só no campo da ciência esses questionamentos, temos questões morais, éticas e tantas outras que podem ser revolucionadas. Se não houvesse pessoas que não considerassem como óbvio e normal a escravidão, ela existiria até os dias de hoje. E os direitos das mulheres? Portanto caro leitor o óbvio, o “dado” pela sociedade hoje pode não ser o óbvio amanhã, pense nisso.

“A vida não examinada não merece ser vivida” (frase atribuída a Sócrates)

Os exames, os questionamentos filosóficos são feitos através da razão, mas é claro que a razão tem seus limites. Costumo questionar: a humanidade tem aproximadamente um milhão de anos e a razão como a concebemos hoje só tem 2500 anos, por que temos que pensar sempre através dessa razão? (mas esse é apenas mais um “pedaço de carvão na fogueira”) Nós podemos questionar o próprio pensamento, ou os ferramentais do pensamento, olha aonde a filosofia chegou...

Então, mesmo que a razão não possa encontrar todas as respostas, pelo menos é um dos caminhos iluminados para esse objetivo. E mesmo quando não encontra as respostas deve continuar questionando, pois pode explanar que o óbvio pode não ser óbvio.

O filme Matrix mostra um dos bons questionamentos filosóficos, para quem não assistiu eu recomendo veementemente que o faça o quanto antes, principalmente o número um da série. Ali se questiona a existência, a realidade, ou na idéia de Descartes (1596-1650), quando estamos dormindo pensamos que o nosso sonho é algo real, alguns suam, choram, gritam e chegam ao êxtase durante o sonho, quando acordam percebem que era ‘apenas’ um sonho. E será que nós não vivemos um sonho dentro de algo maior? Estaríamos dormindo e sonhando?

O Estudo da filosofia, do desenvolvimento das habilidades do pensamento por si só, ainda que não tivessem um propósito definido, já seriam suficientes para o nosso desenvolvimento em todos os campos do saber. Por exemplo: A capacidade de identificar um disparate lógico, evitar palavreado evasivo, ser relevante, expor uma idéia de maneira clara e precisa, etc. São habilidades convenientes seja qual for a sua área de atividade.

Os benefícios do estudo da filosofia têm outros propósitos nobres, ajuda-nos a imunizarmo-nos dos políticos astutos e charlatões de plantão, para fazer um trocadilho, para isso temos Platão (século IV a.C).

Além do mais e para finalizar, há também alguns estudos que demonstram que os alunos que estudam e debatem as questões filosóficas em sala de aula desenvolvem mais sua inteligência intelectual e social.

Outras considerações quanto ao tema deste artigo:

Etimologicamente falando a filosofia vem do grego e é composta por duas palavras, Philo e Sophía (ou Filo e Sofia). Filo quer dizer aquele que tem um sentimento amigável, daí a palavra filantropia. E Sofia quer dizer “sabedoria”. Portanto filosofia quer dizer aquele que tem amizade ou amor ao saber à sabedoria.

Atribui-se a Pitágoras de Samos (século V a.C) a invenção da palavra “filosofia”. Pitágoras dizia que só os deuses têm a sabedoria plena. E aos homens só é possível amar, ter amizade ao saber.

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Leia também:

Do mito, à filosofia o caso da astronomia.

A Filosofia

Referências bibliográficas:

CHÂTELET, François. Uma história da razão: entrevista com Émile Noel. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 13.ed. São Paulo: Ática, 2005.

STEPHEN, Law, Guia ilustrado Zahar: filosofia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar ed. 2008.


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O Racionalismo na Modernidade (continuação capítulo 3.2)




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Na modernidade encontramo-nos com René Descartes (1596-1650) homem que definitivamente influencia o desenvolvimento do pensamento desse período. Descartes era contemporâneo de Galileu Galilei, e se considerava também cientista além de filósofo. Como diz Marcondes em: Textos Básicos de Filosofia.

Descartes considerava um de seus objetivos primordiais a fundamentação da nova ciência natural então nascente, defendendo sua validade diante dos erros da ciência antiga e mostrando a necessidade de se encontrar o verdadeiro método cientifico que colocasse a ciência no caminho correto para o desenvolvimento do conhecimento, o que se propõe no discurso do método. (2005, p.73).

Dos erros da ciência antiga podemos destacar a idéia da concepção geocêntrica, que acabara de ser combatida pouco tempo antes com Copérnico (1473-1543) desvendando que a terra não é o centro do universo mas sim que faz parte, como os outros demais planetas conhecidos de então, deste universo e que giram em torno do sol, e não estes que girariam em torno da terra estando ela no centro do universo . O sol sim seria o “centro” deste universo, ou seja, o Heliocentrismo.
Relembramos que essa não é uma idéia original de Copérnico que a busca lá nas múltiplas hipóteses cosmológicas do passado, no caso em Aristarco de Samos (séc III a.C). No entanto Copérnico parte dessa hipótese e isto dará um grande ponto de partida para a astronomia moderna.

Descartes portanto baseando-se nesses fatos científicos “quebrados”, entre outros, declara que não poderia continuar a acreditar em tudo, sem que fizesse um estudo metódico. Cria então um método que pudesse revelar a “verdade”. Ele diz: “...recebi muitas falsas opiniões como verdadeiras”, era portanto necessário... “destruir em geral todas as minhas opiniões.” E acrescenta ... “o menor motivo de dúvida que eu nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar todas” como nos diz Descartes em Marcondes (2005, p.74).

Assim Descartes desenvolve um método científico e cria regras para que consiga, segundo acreditava, chegar à verdade do conhecimento e isto de forma muito mais simples que o método dedutivo aristotélico, que segundo Descartes deixava dúvidas. O que não evitou que as falsas teorias da antiguidade, como a concepção geocêntrica do universo, fossem apresentadas como válidas, através da formulação lógica que receberam.

As quatro regras básicas desenvolvidas por Descartes que deveriam ser seguidas à risca, e que certamente marcaram muito toda a modernidade, são estas conforme explana Marcondes (2005, p.81):

 A regra da evidência – que deve garantir a validade de nossos pontos de partida no processo de investigação cientifica;

 A regra da análise – indica que um problema a ser resolvido deve ser decomposto em suas partes constituintes mais simples;

 A regra da síntese – sustenta que uma vez realizada a análise devemos ser capazes de reconstituir aquilo que dividimos, revelando assim um real conhecimento do objeto investigado;

 A regra da verificação – alerta para a necessidade de termos certeza de que efetivamente realizamos todos os procedimentos devidos.

Desta forma Descartes desenvolve um método que o faz crer que assim estaria bem conduzindo sua razão “...meu propósito não é ensinar aqui o método que cada um deve seguir para bem conduzir sua razão, mas apenas mostrar de que maneira procurei conduzir a minha”. Descartes (2005, p.39) Discurso do Método.

Está aí retomada, reavaliada, com Descartes, de forma eminente, a racionalidade, o racionalismo, a razão no mundo ocidental. E desta vez com um método que se apresenta menos “burocrático” e quem sabe mais “eficiente”. É claro que esta retomada, não vem só com Descartes já vinha também com outros pensadores e cientistas da natureza, como Copérnico e Galileu. Mas ele se difere por a ter formalizado, sistematizado.

É importante lembrarmos que toda uma concepção, toda uma idéia do mundo, do universo, que estava administrada, estava incorporada na mente das pessoas por quase dois mil anos, é “apagada” de repente – e isto é muito tempo se levarmos em consideração que estas mudanças, esta quebra de paradigma ocorrem há menos de quinhentos anos dos nossos dias – Imaginemos a radical reviravolta cultural que ocorre nesse povo quando um conhecimento de vida tão longa é confrontado, é contestado, se quebra.

Vejamos agora algumas das influências que a retomada deste racionalismo e das pesquisas astronômicas deixam para nossa sociedade e para o ente humano da época, e até mesmo para os nossos dias...

Abraços do Benito Pepe
Referências Bibliográficas
CHÂTELET, François. Uma história da razão: entrevista com Émile Noel. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
DESCARTES, René. Discurso do método. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L & PM Pocket, 2005.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 9.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

______________. Textos básicos de filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 4.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

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Como Surgiu a Filosofia (continuação capítulo 2.2)





Tales, da colônia grega de Mileto – por isso chamado Tales de Mileto(1) - é um dos nomes mais importantes para o surgimento do pensamento filosófico-científico, como é dado por “Aristóteles, no livro I da Metafísica”, e nos relembra Marcondes. “Aristóteles afirma ser Tales de Mileto, no Séc. VI a.C., o iniciador do pensamento filosófico-científico”. Marcondes continua:

Podemos considerar que este pensamento nasce basicamente de uma insatisfação com o tipo de explicação do real que encontramos no pensamento mítico. De fato, desse ponto de vista, o pensamento mítico tem uma característica até certo ponto paradoxal. Se, por um lado, pretende fornecer uma explicação da realidade, por outro lado, recorre nessa explicação ao mistério e ao sobrenatural, ou seja, exatamente àquilo que não se pode explicar, que não se pode compreender por estar fora do plano da compreensão humana. A explicação dada pelo pensamento mítico esbarra assim no inexplicável, na impossibilidade do conhecimento. (2005, p.21).

Mas a filosofia não queria ser simplesmente uma explicação do real, ela está e estava muito além disso, os estudos dos pré-socráticos e, por exemplo, de Parmênides(2) quanto à questão do Ser, nos mostram isso, como comentaremos no terceiro capítulo, quando trataremos do esquecimento do Ser em uma analogia com o esquecimento do Céu, parafraseando Heidegger.

De qualquer forma é assim que surge a filosofia, pelo questionamento dos homens que queriam e buscavam a verdade, mas não queriam explicações incoerentes, assim começa um processo de pensamento diferenciado e racional que pudesse contrapor-se, de certa maneira, às tradições, como comenta Chaui:

A filosofia surgiu quando alguns gregos, admirados e espantados com a realidade, insatisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera, começaram a fazer perguntas e buscar respostas para elas, demonstrando que o mundo e os seres humanos, os acontecimentos naturais e as coisas da natureza, os acontecimentos humanos e as ações dos seres humanos podem ser conhecidos pela razão humana, e que a própria razão é capaz de conhecer-se a si mesma. (2005, p.25).
Alguns fatores foram importantes para o surgimento da filosofia. Ela nasce em condições históricas que a favorecem, no final do século VII e início do século VI a.C. São elas como menciona Chaui (2005, p.37.): as viagens marítimas; a invenção do calendário; a invenção da moeda; o surgimento da vida urbana; a invenção da escrita alfabética e a invenção da política.

As viagens marítimas demonstraram aos gregos que os locais que os mitos diziam habitados por deuses e os mares habitados por monstros, não possuíam monstros nem eram aqueles locais, habitados por deuses. Assim as viagens produzem um desencanto ou a desmistificação do mundo.

A invenção do calendário demonstra e faz perceber que a noção do tempo é algo natural (os fatos se repetem) e não uma força divina incompreensível.

A invenção da moeda propicia um pensamento abstrato e de generalização, onde se notam os valores de troca de maneira simbólica e não mais como a permuta de mercadorias de outrora.

O surgimento da vida urbana e a valorização de uma nova classe de comerciantes ricos que procurava o prestígio pelo patrocínio e estímulo às artes, às técnicas e aos conhecimentos, favorecendo um ambiente filosófico. Isto em contraponto com a aristocracia proprietária de terras, por quem e para quem os mitos foram criados.

A invenção da escrita alfabética propiciando da mesma forma que o calendário e a moeda o crescimento da capacidade de abstração e de generalização.

A invenção da política que dá origem a três aspectos novos para o nascimento da filosofia:

1. a idéia da lei como vontade de um povo que decide por si mesmo o que é melhor para si.
2. o surgimento de um espaço público para discutir através de um novo tipo de palavra ou de discurso, diferente daquele mítico.
3. um pensamento que todos podem compreender e discutir. Todos podem comunicar e transmitir.

Praticamente todos os filósofos antes de Sócrates (séc. VI – V a.C.), por isto chamados de – pré-socráticos - tiveram como características do pensamento noções que tentam explicar a realidade da natureza. Como dissemos, aí a filosofia e a ciência tem seu inicio... Vejamos quais foram estas noções, mencionadas por Marcondes (2005, p.24-27), que as transcrevo de maneira reduzida:

a. A physis
Por os primeiros filósofos serem estudiosos ou teóricos da natureza (physis), portanto o objeto de investigação destes filósofos-cientistas era o mundo natural. Eles buscavam explicação através desta mesma realidade e não fora dela, ou seja, investigavam a própria natureza.

b. A causalidade
Procuravam explicar, relacionando um efeito a uma causa que antecedia outra. Tomavam um fenômeno como efeito de uma causa. O nexo deve ser dado entre os fenômenos naturais, e não através de causas sobrenaturais, é isto que distingue o discurso mítico do filosófico-científico. Mas há um problema! A explicação causal pode ir ao infinito em caráter regressivo, desta forma chegaríamos a um momento inexplicável, a um mistério. Assim acabaríamos novamente no mito. Para isso não ocorrer se estabelece uma causa primeira, um ponto de partida para o processo racional a arqué.

c. A Arqué (elemento primordial)

Para se evitar o infinito causal, postula-se o elemento primordial. Tales de Mileto, o primeiro a postular essa noção, diz ser a água (hydor) o elemento primordial. A água como o elemento presente em todas as coisas. Outros sucessores de Tales, Anaxímenes e Anaximandro, adotaram o ar e o apeiron (algo ilimitado, indefinido, subjacente à própria natureza); Heráclito dizia ser o fogo; Demócrito o átomo e assim outros como Empédocles que dizia ser: terra, água, ar e fogo. A química hoje supõe que o hidrogênio, esteja presente em todo o universo. Estes filósofos buscavam um princípio básico permeando toda a realidade, um elemento natural, inaugurando a ciência.

d. O cosmo

O termo kosmos, para eles, liga-se às idéias de ordem, harmonia e mesmo beleza (já que a beleza resulta da harmonia das formas; daí o termo “cosmético”). O cosmo é assim o mundo natural, o espaço celeste enquanto realidade ordenada de acordo com princípios racionais. O cosmo entendido assim como ordem se opõe ao caos, que seria a falta de ordem, o estado da matéria antes de sua organização. Esta ordem do cosmo é racional, “razão” significando aí leis que regem e organizam esta realidade. (mais à frente completo esta noção – o cosmo)

e. O logos

O termo logos significa literalmente discurso, mas de forma diferente do discurso do mythos. O logos é uma explicação, em que razões são dadas. Por isto que os discursos dos primeiros filósofos explicando o real por causas naturais é um logos. É portanto um discurso racional, justificativo e estão sujeitos à crítica. Um dos pressupostos básicos é a correspondência entre a razão humana e a racionalidade do real.

f. O caráter crítico

Uma das características mais interessantes destas escolas de pensamento era que elas eram passíveis de questionamento, não eram dogmas nem eram apresentadas como verdades absolutas. Eram portanto suscetíveis às divergências e discordâncias e permitiam formulações e propostas alternativas. Não eram verdades reveladas, de caráter divino ou sobrenatural, por isso estavam abertas às discussões, aos reparos, às criticas. A única exigência era que as novas propostas fossem explicadas racionalmente, justificadas e novamente submetidas às críticas.

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(1) “Tales de Mileto (fim do século VII-VI) possui, antes de tudo, um saber que poderíamos qualificar de científico: prevê o eclipse do sol de 28 de maio de 585, afirma que a Terra repousa sobre a água; mas ele tem igualmente um saber técnico: se lhe atribui o desvio do curso de um rio”. Como nos lembra Hadot (2004 p. 43)

(2) Parmênides (c.530 a 460 a.C.) Esse pensamento de Parmênides está exposto num poema filosófico intitulado Sobre a Natureza, dividido em duas partes distintas: uma que trata do caminho da verdade (alétheia) e outra que trata do caminho da opinião (dóxa), ou seja, daquilo onde não há nenhuma certeza. De modo simplificado, a doutrina de Parmênides sustenta o seguinte: Unidade e a Imobilidade do Ser; o mundo sensível é uma ilusão; o Ser é uno, eterno, não-gerado e imutável.

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