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Ética, política e Poética – “Ciências Práticas” em Aristóteles



Como estamos vendo, Aristóteles versa em todas as áreas do conhecimento, mas diferentemente da ciência teórica que é demonstrativa, e que para se “conhecer o mundo” precisa-se demonstrar as causas; no caso da ética não ocorre isso e sim uma deliberação, e saber deliberar é o “saber” no campo da ação. Assim, para Aristóteles, o homem prudente e virtuoso é aquele que delibera bem.

Quanto a ética e a política

A ética e a política estão no campo da deliberação e deliberar bem é saber decidir, a virtude representa o “meio termo”, a justa medida de equilíbrio entre o excesso e a falta de um atributo qualquer. Mas, veremos que Aristóteles distingue a ética da política.

O que são deliberações?

“Deliberações são atividades racionais de descoberta da verdade no campo prático, tendo a estrutura típica de um ato de dar razões e justificar crenças, mas não se reduzem a demonstrações”. Como nos lembra Zingano (2005, p.104)

Aristóteles escreveu muito sobre política, no diálogo perdido Da justiça já se anunciavam alguns dos temas expostos nos oito fragmentos reunidos por Andronico sob o título de Política. Ele escreveu ao longo de toda a sua vida, mas também nesse tema, como em outros diversos, é pouco o que resta sobre o assunto.

Aristóteles foi o primeiro filósofo a distinguir a ética da política, centrada a ética na ação voluntária e moral do indivíduo enquanto tal, e a política, nas vinculações deste com a comunidade. Dotado de lógos, (“palavra”, “discurso”) isto é, de comunicação, o homem é um animal político, inclinado a fazer parte de uma pólis, a "cidade" enquanto sociedade política. A cidade precede assim a família, e até o indivíduo, porque responde a um impulso natural. Dos círculos em que o homem se move, estão a família, a “tribo”, o trabalho e a pólis, mas só este último constitui uma sociedade perfeita. Daí serem políticas, de certo modo, todas as relações humanas. A pólis é o fim (télos) e a causa final da associação humana. Uma forma especial de amizade, a concórdia, constitui seu alicerce.

Os regimes políticos caracterizam-se pela solução que oferecem às relações entre a parte e o todo na comunidade. Há três formas de regimes: monarquia, aristocracia e politéia (um compromisso entre a democracia e a oligarquia, mas que tende à primeira). À monarquia interessa basicamente a unidade da pólis; à aristocracia, seu aprimoramento; à democracia, a liberdade. O regime perfeito integrará as vantagens dessas três formas, rejeitando as deformações de cada uma: tirania, oligarquia e demagogia. A relação unidade-pluralidade aparece, ainda, sob outro aspecto: o da lei e da concórdia como processos complementares.

Aristóteles diz que o homem não é apenas um “animal racional” mas também um “animal político”. Porém essa atribuição se dá aos homens que têm seus direitos políticos e os usam em parte maior ou menor para a administração da cidade ou seja os homens-cidadãos.

Em Ética a Nicômaco Aristóteles diz:

(...) aquilo que é próprio de cada criatura lhe é naturalmente melhor e mais agradável; para o homem, a vida conforme o intelecto (a razão) é melhor e mais agradável, já que o intelecto, mais que qualquer outra parte do homem, é o homem. Esta vida, portanto, é também a mais feliz. (1985, p.203)

Assim, para Aristóteles a verdadeira felicidade do homem só se alcança quando este vive plenamente sua racionalidade e vivê-la significa, viver a nossa “alma racional” e os valores da alma são os valores supremos para Aristóteles.


Poética em Aristóteles

Diferentemente de Platão, que dizia ser a arte apenas uma cópia da cópia por ela copiar algo que já era uma cópia do Mundo das Ideas. Aristóteles não condena a Arte apesar de também reconhecê-la como mimese (imitação da “realidade”), Aristóteles até atribui valor à Arte enquanto “purificador” (conceito de “catarse”), ela liberta das paixões.

Portanto entre as ciências do fazer, ou ciências práticas, apenas a obra de arte mereceu estudo sistemático de Aristóteles. Assim, ele distingue as artes úteis das artes de imitação, sendo que estas últimas, ao contrário do que o nome parece indicar, exprimem o dinamismo criador do homem completando a obra da natureza: ele tem de captar através da ideia o que na natureza se encontra, por assim dizer, apenas esboçado ou latente.

Na Poética, Aristóteles confere grande relevo a sua teoria da tragédia, que exerceu notável influência sobre o teatro desde a época do Renascimento. Segundo sua própria concepção de poesia, salientou a importância da imitação ou Mimese, não como mero decalque da realidade, mas como uma recriação da vida: a tragédia imita "não os homens, mas uma ação e a vida". Também a ação, para Aristóteles, é fundamental: os caracteres devem surgir como sua decorrência, recomendando o filósofo o recurso à ação histórica, tomada de empréstimo para a obra de arte. Preocupado ainda com o efeito da tragédia sobre o espectador, enuncia seu conceito de “Catarse” (cathársis, purificação das paixões), objetivo que, para Aristóteles, é indispensável.

Abraços do Benito Pepe


Próximo tópico: Física e ciências naturais em Aristóteles


Referências bibliográficas deste tópico

Aristóteles. Ética a Nicómaco. Brasília. UnB, 1985.

ZINGANO, Marco. Platão & Aristóteles: o fascínio da filosofia. 2. ed. São Paulo: Odysseus editora, 2005.


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Algumas das “obras” de Aristóteles: a questão da Lógica e da Causalidade


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Aristóteles pode ser considerado o pai da Lógica no mundo ocidental. Nos primeiros séculos da era cristã, os escritos lógicos de Aristóteles foram reunidos sob a denominação de Órganon (já que se considerava a lógica apenas um instrumento da ciência, um órganon). Conforme menciona Chaui:

(...) a lógica é um instrumento do pensamento para pensarmos corretamente. Não se referindo a nenhum ser, a nenhuma coisa, a nenhum objeto, a lógica não se refere a nenhum conteúdo, mas à forma ou às formas do pensamento ou às estruturas do raciocínio em vista de uma prova ou de uma demonstração. (...) A lógica é o que devemos estudar e aprender antes de iniciar uma investigação filosófica ou científica, pois somente ela pode indicar qual é o tipo de proposição, de raciocínio, de demonstração, de prova e de definição que uma determinada ciência deve usar. (2002, p.357)

A Primeira das obras integrantes do Órganon, foi os Tópicos que classificam os diferentes modos de atribuição de um predicado a um sujeito. Cabe destacar ainda nos Tópicos o esboço da teoria do silogismo, que, no entanto, só foi consolidada nos Primeiros analíticos.

“O silogismo é um argumento no qual, certas premissas estando postas delas resulta necessariamente uma conclusão”. Como nos lembra Zingano (2005, p.88).

Essa teoria se caracteriza pelo propósito de demonstrar a correção formal do raciocínio, independentemente de sua verdade objetiva. Assim, se todo B é A e se todo C é B, todo C é A. A primeira proposição é a maior; a segunda, a menor; e a última, a conclusão.

Entretanto é nos segundos analíticos que Aristóteles vai estudar um determinado tipo de silogismo: o silogismo científico, ou seja aquele que tem preocupação com a verdade.

Conforme transcreve Chaui:

“Só há ciência quando conhecemos pelas causas” e acrescenta que este é o lema fundamental de Aristóteles (e de todo o pensamento ocidental), Chaui lembra que no livro I dos segundos analíticos, Aristóteles diz que:

Consideramos que possuímos uma ciência de modo absoluto, e não de modo acidental como nos sofistas, quando julgamos conhecer a causa pela qual a coisa é, sabendo que ela é a causa disso e que é impossível que o efeito seja diferente do que é. (2002, p.346)

Dessa maneira temos que um argumento válido difere-se de um argumento cientificamente válido, ou sólido. Através de sua causalidade e coerência lógica.

Aristóteles distingue quatro sentidos ou dimensões da causalidade:

1. Causa Formal – Trata-se da forma ou modelo, que faz com que a coisa seja o que ela é. Assim responde-se à pergunta: o que é “x”?

2. Causa Material – É o elemento constituinte da coisa, a matéria de que é feita essa “coisa”. Responde à pergunta: de que é feito isso?

3. Causa Eficiente – Consiste na fonte primaria da mudança, o agente da transformação da “coisa”. Responde à pergunta: por que “x” é “x”? O que fez com que “x” viesse a ser “x”?

4. Causa Final – Trata-se do objetivo, do propósito, da finalidade da coisa. Responde a pergunta: para que “isso”?

Vamos dar um exemplo para essas causas usando o próprio exemplo que Aristóteles menciona. Para se fazer uma estátua de uma deusa grega precisamos do mármore, do bronze ou outro material seja argila etc. Esses materiais são como o próprio nome diz as causas materiais, ou seja a matéria que é usada na elaboração da estátua; essa estátua terá uma forma, um desenho, que é a deusa grega, esta é causa formal, a forma da estátua; para se elaborar essa estátua precisamos de um profissional, artesão ou escultor, este é o que dá a forma à Estatua, e esta é a causa eficiente para ela existir; por fim temos o objetivo final porque ou para que ela foi feita e esta é a causa final, que pode ser para se colocar no templo com o propósito do culto, para uma decoração, uma homenagem ou seja lá para qual fim tenha sido elaborada.

A aplicação desta lógica e desta causalidade se refere mais facilmente às coisas do mundo do devir, mas para Aristóteles há uma causa primeira e esta é buscada através da metafísica, que é sumamente a teologia. Segundo Aristóteles, como nos lembra Reale, a metafísica:

a) “indaga as causas e os princípios primeiros ou supremos”;
b) “indaga o ser enquanto ser”;
c) “indaga a substancia”;
d) “indaga Deus e a substancia supra sensível”. (2004, p.195)

Quanto à metafísica falaremos mais em outro tópico.

Abraços do Benito Pepe


Referências bibliográficas deste tópico:

CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles, volume 1. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia, v.1.; tradução de Ivo Storniolo; 2.ed. São Paulo: Paulus, 2004.

ZINGANO, Marco. Platão & Aristóteles: o fascínio da filosofia. 2. ed. São Paulo: Odysseus editora, 2005.


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Obras e "doutrina" de Aristóteles – uma introdução




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Antes de citarmos algumas das obras de Aristóteles precisamos lembrar que havia dois tipos básicos de textos: os escritos para o público em geral, ou seja as obras com o intuito de publicação para “fora da escola”, os escritos “exotéricos”, que eram normalmente em forma de diálogos; e os textos para os alunos do Liceu, ou seja “material de aula”, os “esotéricos”, esses portanto seriam escritos didáticos destinados aos seus discípulos.

Perderam-se quase todas as obras publicadas por Aristóteles, com exceção da Constituição de Atenas, descoberta em 1890. As obras conhecidas resultaram de notas para cursos e conferências do filósofo, ordenadas de início por alguns discípulos e depois, de forma mais sistemática, por Andronico de Rodes (c. 50 a.C.).

Sendo os escritos exotéricos perdidos em grande parte, foram os escritos esotéricos, os que em sua maioria, permaneceram até os dias de hoje. Estes tratam da problemática filosófica e de alguns ramos das ciências naturais.

Quanto às “ciências” ou o “conhecimento”, Aristóteles os divide da seguinte maneira, como está contido no livro, Metafísica, 1025b25:

Os conhecimentos Práticos (práxis); os Produtivos (poiesis) e os Teóricos.

Quanto ao conhecimento Teórico, se divide por um lado em: Física que está no campo das “Ciências Naturais”, e por outro lado em Matemática (quantidade, número) e Filosofia Primeira (teologia) estas duas ultimas estão no campo das “ciências gerais”.

Portanto a filosofia primeira, posteriormente chamada de metafísica, ou ontologia (termo que vem depois, para tratar do ser enquanto ser), inclui a teologia o ser imóvel, a causa primeira, o “primeiro motor”.

Dessa maneira podemos perceber que apesar de sua aptidão à cientificidade, Aristóteles colocava a Física em “segundo lugar”, chamando de filosofia primeira justamente a teologia e a ontologia. Mas quanto a ontologia (= discurso do ser; onto - ser, logia - discurso), para Aristóteles não haveria um discurso único. “O ser se diz em múltiplos sentidos”.

Como nenhum filósofo antes dele, Aristóteles compreendeu a necessidade de integrar o pensamento anterior a sua própria pesquisa. Por isso começa procurando resolver o problema do conhecimento do ser a partir das antinomias acumuladas por seus predecessores: unidade e multiplicidade, percepção intelectual e percepção sensível, identidade e mudança. Problemas fundamentais, ao mesmo tempo, do ser e do conhecimento.

De qualquer maneira para Aristóteles existe um Ser separado da matéria e imóvel, é ele o primeiro motor, o Deus de Aristóteles.


"Diferenças" entre Platão e Aristóteles

Para entendermos Aristóteles é importante fazermos algumas distinções entre ele e seu mestre Platão. Uma das principais críticas de Aristóteles quanto a Platão, consiste na rejeição do dualismo representado pela teoria das ideas, como se vê na Metafísica 1, caps. 6 e 9; XII e XIV.

Uma das questões que Aristóteles levanta é a problemática de se relacionar o mundo material (ou sensível) com o mundo das ideas (o mundo inteligível).

Diferentemente do dualismo platônico, em que o mundo da inteligência era separado do das coisas sensíveis, mas que visava antes de tudo a “salvar a ciência”, estabelecendo a coerência necessária entre o conceito e seu objeto. O realismo de Aristóteles procura restabelecer essa coerência sem abandonar o mundo sensível: explora a experiência, e nela mesma insere o dualismo entre o inteligível e o sensível.

O projeto de Aristóteles visa em última análise restabelecer a unidade do homem consigo mesmo e com o mundo, tanto quanto o projeto de Platão, baseado numa visão do cosmos. Entretanto, Aristóteles censura a Platão por ter seguido um caminho ilusório, que retira a natureza do alcance da ciência. Aristóteles procura apoio na psicologia. O ser existe diferentemente na inteligência e nas coisas, mas o intelecto ativo, que é atributo da primeira (a inteligência), capta nas últimas (as coisas) o que elas têm de inteligível, estabelecendo-se dessa forma um plano de homogeneidade.

Das “diferenças” entre Platão e Aristóteles, Reale nos lembra que:

Nas obras ‘esotéricas”, Aristóteles deixou de lado o componente místico-religioso-escatológico que era tão forte nos escritos do mestre (...) E que (...) Platão tinha interesse pelas ciências matemáticas, mas não pelas ciências empíricas (com exceção da medicina). (2004, p.191-2).

Podemos mencionar também o que lembra Zingano: “Platão, filósofo literário; Aristóteles, argumentador de rara precisão. Platão idealista; Aristóteles, investigador da natureza”. (2005, p.62).

Não obstante ao que foi narrado acima, é bom lembra que, conforme lembra Blackburn:

(...) os acadêmicos, de forma geral, rejeitam que a obra de Aristóteles tenha se afastado de um platonismo originalmente aceito, chegando mesmo a ver em sua metafísica tardia um retorno a Platão. (1997, p.25)

Visto isso podemos agora citar e posteriormente comentar sucintamente algumas das “matérias” do grande filósofo Aristóteles.

As principais obras de Aristóteles, agrupadas por matérias, são:
(1) Lógica (que constituem o Órganon): Categorias (propõe uma classificação geral em dez classes de tudo o que existe), Da interpretação, Primeiros Analíticos (contém a doutrina das inferências silogísticas e representam a parte teórica mais madura da doutrina lógica aristotélica) e segundos analíticos (dizem respeito sobretudo a problemas de filosofia da lógica e de metodologia), Tópicos, Refutações dos sofistas;
(2) Filosofia da natureza: Física, Do Céu, Da geração e da corrupção;
(3) Psicologia e antropologia: Sobre a alma, além de um conjunto de pequenos tratados físicos;
(4) Zoologia: Sobre a história dos animais;
(5) Metafísica: Metafísica (obra mais famosa, contém 14 livros);
(6) Ética: Ética a Nicômaco, Grande ética, Ética a Eudêmia;
(7) Política: Política, Econômica;
(8) Retórica e poética: Retórica, Poética.


Referências bibliográficas deste tópico. A Bibliografia completa será apresentada no final deste texto.


BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1997.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia, v.1.; tradução de Ivo Storniolo; 2.ed. São Paulo: Paulus, 2004.

ZINGANO, Marco. Platão & Aristóteles: o fascínio da filosofia. 2. ed. São Paulo: Odysseus editora, 2005.


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Aristóteles, uma Visão Geral de sua obra e "doutrina"



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Este texto é dividido em partes, esta é a primeira postagem, no final de cada postagem você encontrará um link para a seqüência do texto. Os assuntos apresentados são os seguintes: Comentários Iniciais; Obras e Doutrina de Aristóteles – uma introdução; A questão da Lógica e da Causalidade; Ética, Política e Poética; Física e Ciências Naturais; a Astronomia de Aristóteles; Metafísica; e o Cristianismo (o tomismo).


1.1 Comentários Iniciais

Pelo rigor de sua metodologia, pela amplitude dos campos em que atuou e por seu empenho em considerar todas as manifestações do conhecimento humano como ramos de um mesmo tronco, Aristóteles foi o primeiro pesquisador científico no sentido atual do termo.

Mais do que qualquer outro pensador, Aristóteles determinou a orientação e o conteúdo da história intelectual do Ocidente. Durante séculos seu sistema filosófico e científico mediou o pensamento Cristão e Islâmico, e até o fim do século XVII o mundo ocidental foi aristotélico, como veremos neste texto e especialmente no tópico “A Astronomia..”, através do sistema Geocêntrico, defendido por Aristóteles.

Aristóteles criou uma vastíssima ontologia, ou teoria da natureza e relações do ser, na qual as substâncias interagem de várias maneiras para produzir objetos que diferem em propriedades como quantidade, qualidade, tempo, posição e condição de ação. A partir dessa ontologia, Aristóteles desenvolveu uma “filosofia da natureza” em que a matéria sofre processos de mudança dinâmica e espontânea que são, por sua vez, mediados por princípios preexistentes de forma e estrutura.
Elaborou então uma hierarquia de existências que começam com os quatro corpos primários (terra, água, fogo, ar), os quais formam substâncias inorgânicas e, depois, os seres vivos: as plantas apresentam as funções de crescimento, nutrição e reprodução; os animais possuem, além dessas, as de sensação, desejo e locomoção; e os seres humanos, a faculdade da razão. Com sua “alma racional”, o homem pode exercer a suprema atividade, a obtenção do conhecimento.

Aristóteles nasceu em Estagira (donde ser dito "o Estagirita"), Macedônia, em 384 a.C. Isso pode parecer insignificante mas tem importância pelo fato de ele ser um “caipira”. Ele era de uma região agrícola, e não uma área portuária como Atenas. Aristóteles era de família de médicos, provavelmente por esse motivo grande parte de sua obra, sejam tratados de biologia.

Desde de jovem com 17 anos ingressa na Academia de Platão, e lá permanece por 20 anos, enquanto Platão viveu. Na Academia Aristóteles conheceu famosos cientistas entre eles o célebre Eudóxio.

Depois da Morte de Platão (seu grande mestre) sai de Atenas para onde regressa em 335. Quando volta a Atenas, funda o Liceu, “sua escola”, já com 50 anos de idade e tornado um pesquisador e filósofo maduro. Durante 13 anos dedicou-se ao ensino e à elaboração da maior parte de suas obras.

Aristóteles foi preceptor de Alexandre o Grande, o que lhe acarretou um certo problema com Atenas. Houve uma revolta contra os macedônios. Com a morte de Alexandre (323), Aristóteles teve de fugir à perseguição dos democratas atenienses, refugiando-se em Cálcide, na Eubéia, onde morreu em 322 a.C. no exílio.

Após a morte de Aristóteles, a escola peripatética (do grego peripatós = “passeio”, como também era chamado o Liceu pelo fato de Aristóteles ministrar seus ensinamentos passeando pelos jardins), dedicou-se a investigações científicas. A filosofia do Liceu foi retomada por discípulos como Teofrasto de Eresso e Eudemo de Rodes, que editou os escritos éticos do Corpus aristotelicum.

Depois da redescoberta e exegese das obras de Aristóteles por Andronico de Rodes, por volta do ano 50 a.C., o pensamento aristotélico foi objeto de muitas exposições e comentários no mundo greco-romano. Com a queda do Império Romano, as obras de Aristóteles se perderam no Ocidente, mas foram preservadas por sábios e exegetas árabes, siríacos e judeus, entre os quais há que destacar Avicena e Averroés.
Com efeito, entre os séculos IX e XIII, a filosofia islâmica fundou-se em várias interpretações do pensamento aristotélico. Os muçulmanos mantiveram vivo o legado de Aristóteles e o devolveram à Europa nos séculos XII e XIII, quando Tomás de Aquino faria do aristotelismo o alicerce filosófico da teologia cristã.

A força do aristotelismo declinou com a afirmação da ciência moderna, mas ainda afeta de modo sutil a orientação do pensamento ocidental. Na contemporaneidade, por exemplo, serviu de ponto de partida para a "psicologia descritiva" de Franz Brentano e contribuiu para a fenomenologia de Edmund Husserl. Reponta ainda no neotomismo.

Dá-se o nome de aristotelismo à atividade e ao pensamento das escolas filosóficas que se inspiraram na obra de Aristóteles. O Estagirita desenvolveu uma forma de raciocinar baseada no silogismo, pelo qual duas premissas básicas (a maior e a menor) levam a uma conclusão. Para definir essas premissas básicas, usou o raciocínio indutivo. Dominou um enorme volume de dados empíricos nas ciências naturais, e grande parte de seus textos são descritivos.

Nos próximos tópicos veremos: um pouco de sua Obra e Doutrina; Lógica; Metafísica; Ética e Política; Poética; Física e Ciências Naturais; a Astronomia de Aristóteles; e, o Cristianismo (o tomismo).

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Próximo tópico: Obras e "doutrina" de Aristóteles – uma introdução



Bibliografia


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Texto Completo da “Alegoria da Caverna” contido no Livro “A República” de Platão



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Apresento aqui o texto completo referente à Alegoria da Caverna de Platão, esta é uma tradução de Enrico Corvisieri publicada na coleção “Os Pensadores”.

O diálogo é entre Sócrates e Glauco, escrito por Platão...


Sócrates - Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco - Estou vendo.

Sócrates - Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que o transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e dos seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica de fronte?

Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco - É bem possível.

Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco, sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco - Sim, por Zeus!

Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados.

Glauco - Assim terá de ser.

Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco - Muito mais verdadeiras.

Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco - Com toda a certeza.

Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e a sua luz.

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Por fim, suponho eu, será o Sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal como é.

Glauco - Necessariamente.

Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates - Ora, lembrando-se da sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que aí foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples criado de charrua, a serviço de um pobre lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco - Sou da tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco - Por certo que sim.

Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que os seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se a alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco - Sem nenhuma dúvida.

Abraços do Benito Pepe


Link relacionado
A Alegoria da Caverna...


Bibliografia

PLATÃO. A República. (trad. Enrico Corvisieri) São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Col. Os Pensadores).

Recomendo também para quem quiser ter este livro “A Republica de Platão”, e que pode ser adquirido facilmente e com um bom preço, o texto integral da Martin Claret, é o número 36 da Coleção “A Obra Prima de Cada Autor”.


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O Apolíneo e o Dionisíaco – em Nietzsche: a perda da proximidade com a Natureza que tinha o homem antigo (Continuação)



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Finalizando e retornando aos deuses gregos, relembramos: Apolo filho de Zeus e Leto, que era um dos mais importantes e multifacetados deuses do Olimpo; identificado como o deus da luz e do sol. E, Dionísio filho de Zeus e da princesa Semele, foi o único deus filho de uma mortal; o deus grego equivalente ao deus romano Baco, das festas, do vinho, do lazer e do prazer.

Dioniso só “aparece” através de Apolo. Apolo – luz, Sol; Dioniso – Terra. Para um existir é necessário o outro, só há terra porque existe o Sol. “Tensão de contrários”. Nesse contexto eu pergunto: Será que a humanidade perdeu todo sentido de pertencimento a uma ordem maior, ao cosmos, sua origem?

Como supomos hoje através dos “conhecimentos” em astronomia, foi através de mortes e ressurgimentos de algumas estrelas: “poeiras” que formam estrelas que ao morrer tornam-se novamente poeiras “encontrando-se” com outras (“poeiras”) que com elementos químicos cada vez mais complexos formam novas estrelas. Portanto o nosso Sol e todo o sistema solar e tudo o que nele existe assim fora formado. Em outras palavras nós somos “poeira das estrelas”, e assim não há dúvidas que nossa origem é cósmica, nós viemos deste vasto, imenso, infinito ou finito universo, que tem aproximadamente 13,7 bilhões de anos desde o chamado Big Bang. E da mesma forma que é espantoso, que é um verdadeiro thauma relatar mitos da criação através da mitologia ou das diversas religiões, é da mesma maneira um verdadeiro espanto os relatos da nova cosmologia, conforme diz Dennis Overbye apud Brockelman:

O que poderia aproximar mais do caráter de mito do que a noção de que o universo de fato apareceu, talvez do nada; de que os átomos em nossos ossos e sangue foram formados em estrelas a anos-luz de distância e bilhões de anos atrás; ou de que as partículas ainda mais antigas de que são compostos esses átomos são fósseis de energias e forças que existiram durante o primeiro microssegundo da criação, as quais mal podemos compreender? Somos todos artefatos do universo, lembranças andantes do mistério último. Somos poeiras andantes, poeiras de estrelas andantes. (2001, p.93).

Começamos a elaborar um pensamento através da mitologia, principalmente da mitologia grega e terminamos com a nossa nova “mitologia científica”.Com o advento da física quântica a idéia de fenômeno, no que se refere à cosmologia muda substancialmente, o sentido de “existência” também; da mesma maneira as “certezas” de outrora agora com o “principio da incerteza”(2) de Heisenberg modificam nosso pensamento quanto à questão da existência, como diz Andreeta:

Sabemos que tudo o que existe no nosso universo (e também nós mesmos) é constituído de minúsculas partículas de matéria e de energia, e que forças naturais atuam sobre essas partículas, aglomerando-as para formar tudo o que existe. Porém, hoje não existe mais distinção entre matéria e energia. Segundo Einstein, matéria e energia são dois estados diferentes de uma mesma “substancia quântica universal”. Os conhecimentos científicos atuais parecem, portanto, convergir com os da filosofia antiga, que afirmam que tudo o que existe deve provir de uma única fonte. (2004, p.9).

Será que voltaremos à origem do pensamento, através do entendimento no futuro, desta nova cosmologia ou física? Recordaremos que somos parte de um todo e todos somos um?

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Bibliografia e Referências Bibliográficas

ANDREETA, José Pedro. Quem se atreve a ter certeza? : a realidade quântica e a filosofia. 1. ed. São Paulo: Mercuryo, 2004.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 5.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

BROCKELMAN, Paul. Cosmologia e criação: a importância espiritual da cosmologia contemporânea. 1.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1997.

JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 4.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 9.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007


Links e/ou Notas:

(1) Veja minha monografia apresentada na especialização em filosofia contemporânea à Puc-rio.
PEPE, Benito. A filosofia e a astronomia: instâncias em que o thauma aparece


(2) O princípio da incerteza de Heisenberg consiste num enunciado da mecânica quântica, formulado inicialmente em 1927, impondo restrições à precisão com que se podem efetuar medidas simultâneas de uma classe de pares de observáveis. Por exemplo: não se pode saber ao mesmo tempo a posição e a velocidade de um elétron.


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O Apolíneo e o Dionisíaco – Apolo e Dioniso em Nietzsche: a perda da proximidade com a Natureza que tinha o homem antigo



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Há diversos deuses apresentados pela mitologia grega, o “principal” deles é Zeus que seria o “deus dos deuses” para os gregos antigos. Apollo e Dioniso, dois desses deuses da mitologia grega são tratados por Nietzsch de uma maneira bastante interessante e que contribui de maneira “espetacular” para a compreensão de sua obra, especialmente e especificamente citados em “O nascimento da tragédia” (1872). A arte grega tem origem além do homem e representa “forças” que estão presentes no Mundo.

Um dos aspectos importantes para a compreensão da “explanação” que segue, é entendermos que os deuses gregos, diferentemente do Deus da tradição judaica-cristã, são imanentes à Natureza, eles não estão fora dela; esses deuses têm um grau de pertencimento intrínseco e nascem junto com o “cosmos” diferentemente do Deus Judaico-cristão que está fora do universo e o cria para o homem.

Portanto a Physis (“física”) grega, tem um sentido bem diferenciado de como é considerada a nossa natureza desde o período da modernidade em diante (século XV); a physis grega era qualitativa e não quantitativa como é estudada a “nossa natureza” , podemos dizê-la como aquilo que se mostra, o que aparece, o que brilha. O Thauma, o espanto, a perplexidade, admiração, estarrecimento, maravilhamento, estranhamento, que aparece na Natureza é um dos aspectos que nos seus primórdios levaram os homens à filosofia inicial e assim os primeiros filósofos são tratados como os filósofos da natureza ou physis. A physis e a filosofia são instâncias em que o thauma aparece. (1)

Uma das questões aos olhos de Nietzsche é que a Arte Apolínea surge da “alegre, necessidade da imagem”. Mas a imitação da natureza pelos gregos era totalmente diferente da imitação dessa natureza pelos modernos. Com os modernos a natureza se torna objeto. Nos gregos e por exemplo em Heráclito se dizia que a physis ama se ocultar.

Apolíneo-dionisíaco é uma expressão relativa ao que vem dos deuses: Apolo e Dioniso – expressão popularizada e tratada por Nietzsche como um contraste no livro ‘O nascimento da tragédia”, entre o espírito da ordem, da racionalidade e da harmonia intelectual, representado por Apolo, e o espírito da vontade de viver espontânea e extasiada, representado por Dioniso. Conforme diz Blackburn no verbete apolíneo/dionisíaco.

Um quadro das distinções corriqueiramente apresentadas entre Apolo e Dioniso, embora não retratem “verdadeiramente” suas essências, podem ser descritas da maneira que segue.

Apolo:
Bela Aparência; Sonho; Forma (limite); Princípio de individuação; Resplandecente; Ordem; Serenidade; etc.

Dioniso:
Música; Embriaguez; Uno Primordial (não há forma, sem limite); Indiferenciação; Essência; Desmedida; Domínio Subterrâneo; etc.

O homem constitui um elo com o mundo. Não deveríamos nos afastar dessa realidade que era vivenciada na época antiga. “O Nascimento da tragédia” apresentado por Nietzsche, parece prever o que ocorreria com o homem 1 século depois desse livro ser publicado, hoje o homem evita toda a finitude e a “realidade” que é mostrada na tragédia grega. O homem dos nossos dias não aceita sofrer, não enfrentar a dor, não aceita a angústia, procura afastar-se de “todo mal” através de medicamentos e mais “medicamentos”, foge de tudo e de todos, utiliza-se de um movimento desenfreado, da agitação, das “atividades”, evita a solidão, não dá tempo para si próprio, tem medo do “real;” e o pior é que a “normalidade” da sociedade é uma loucura assustadora. A propósito: Quem é “louco”? Quem é “sano”?

Outra questão está ligada ao conhecimento, há uma diferenciação entre o conhecimento trágico (dos pré-socráticos) e o conhecimento racional (em Sócrates). No “conhecimento” racional valoriza-se a causalidade e o efeito, a causa e efeito não apareciam nos pré-socráticos como aparecem na contemporaneidade, mas eram imanentes, eram intrínsecas à natureza. O conhecimento racional vai se colocar acima da Arte e da Vida, e pior, começa a julgá-las. A partir de Sócrates e de Eurípides a instância mais importante passa a ser o “conhecimento” e não mais a “arte”. Platão depois, vai dizer que a “arte” é apenas uma cópia da cópia (nosso mundo) de um “original” que estaria no mundo das ideias (o mundo supra-sensível).

Com todo esse processo perdemos algo especial que vinha dos gregos originais, entre essas perdas estão o sentido de pertencimento e Valor absoluto da natureza, Conforme comenta Brockelman:

O que perdemos, portanto, foi a habilidade de ver nossa vida como parte de uma ordem e uma realidade mais amplas, para além de nossos transitórios desejos e sonhos diários. Ao ver a natureza e todo o universo como uma “matéria” posta aqui para nossa transformação e uso infinitamente produtivos, reduzimos a realidade a um mero valor extrínseco para nós; ela não é mais vivenciada como intrinsecamente valiosa em si. Por conseqüência, perdemos todo senso de pertencer a um drama e a uma realidade mais vastos e significativos. (2001, p.23)

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No próximo tópico continuamos esse texto; apresentamos a Bibliografia e as notas e links.


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Considerações finais e Referências Bibliográficas



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Teço agora minhas considerações finais e apresento as referências bibliográficas e a Bibliografia consultada.

1.6. Considerações finais

Comecei este texto falando da ética. Pretendi demonstrar a sua importância com relação à ciência e a subjetividade. Entendo que da mesma forma que houve uma retomada do racionalismo na idade moderna em que se valorizou a ciência como fonte do conhecimento e de certa maneira se minimizou o sujeito, agora, em conseqüência dessa chamada crise da modernidade e uma pós-modernidade ou hiper-modernidade - como preferem alguns - estamos no caminho de retomar o sujeito, re-valorizar o ente, em detrimento simplesmente do conhecimento científico racionalista metódico, e retomando o sujeito lá dos pré-socráticos e a ética em Sócrates, talvez estejamos mais próximos da verdade, das certezas que nós sempre ansiamos, nós sempre buscamos. Ou quem sabe nunca a encontremos. Mas pelo menos, estaremos valorizando o ser humano, o pensamento e não algo fora de nós.

A questão da liberdade é hoje analisada, as relações de poder são estudadas, questionadas. Os direitos humanos são debatidos no mundo. Não existe como não nos preocuparmos com o planeta, com os seres que habitam esta nave espacial chamada terra, na qual todos viajamos juntos pelo cosmos há alguns milhões de anos. Não há como deixar de questionar a ciência e os pilotos desta nave, afinal, nós também estamos dentro dela, não é mesmo?

Vejo assim a importância da ética e da subjetividade. Vejo a ética, como mencionei no início deste trabalho, como um caminho, um condutor, um analista, um intermediário para se chegar à verdade. A ética pauta, a ética conduz, a ética faz refletir e questionar.

Imagine uma nave em que o piloto pudesse fazer o que ele quisesse, levá-la para onde almejasse. Não! Nós não podemos admitir isso! Relembro... nós estamos dentro desta mesma e única nave e cabe a nós cuidarmos dela e dos co-passageiros!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E BIBLIOGRAFIA

APPIAH, Kwame Anthony. Introdução à filosofia contemporânea. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 2006.

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de filosofia. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 13.ed. São Paulo: Ática, 2005.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Ditos e escritos II, Manuel Barros da Motta (Org.) 1.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.

JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 4.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

KANT, Immanuel. Textos seletos. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 2005.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 9.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.


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A Modernidade e a Crise da Modernidade



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Continuamos agora falando da Modernidade e da chamada Crise da Modernidade ou Pós-modernidade e mesmo Hiper-modernidade como preferem alguns.

1.4. A modernidade

A modernidade, o mundo moderno, teve como fatores determinantes o renascimento (origem - Florença – Itália), a reforma protestante (Alemanha – Lutero), e a revolução industrial (na Ilha - Inglaterra), mas começa mesmo, na área da revolução científica, com pensadores, cientistas e filósofos como poderíamos chamá-los na época; Tais como: Copérnico, Galileu Galilei, Descartes, Isaac Newton, entre outros tantos. A partir de então tivemos uma verdadeira revolução na ciência, e como conseqüência, o reposicionamento do homem em sua cultura, visão do mundo, do universo, e de si mesmo. Tratou-se da relação Sujeito – Objeto. Mas o que foi valorizado o Sujeito ou o Objeto?

É a ciência moderna: a astronomia e a física, para citar alguns exemplos, que renascem. Mas agora baseadas e concebidas em uma relação matemática de regularidade austera. Daí, mais tarde, vir a brotar diversas invenções, que verdadeiramente revolucionaram a face do planeta terra. Acreditamos que da mesma maneira que benefícios vieram com todo esse germinar de “progresso”, desabrocharam-se desilusões e desencantos que mais posteriormente seriam sentidos, conforme comentaremos mais à frente.

Como nos relembra Michel Foucault, em Arqueologia das Ciências e História dos Sistemas de Pensamento (2000) :

Freud fala, em algum lugar, que há três grandes feridas narcísicas na cultura ocidental: a ferida imposta por Copérnico; aquela feita por Darwin, quando ele descobriu que o homem descendia do macaco; e a ferida feita por Freud, já que ele próprio, por sua vez, descobriu que a consciência repousava na inconsciência. (p.43).

Aproveito este segmento do texto, para mencionar aqui que essa tripla humilhação ajudou, de certa forma, com que os homens saíssem um pouco mais do seu pedestal supremo e de uma superioridade incondicionada, que se fortalecera com o iluminismo, e que se reposicionassem no planeta em que vivem, dentro de sua realidade e não tanto mais como aqueles que se achavam os seres supremos por excelência, os esclarecidos através da razão.

Kant dá limite à razão e estabelece critérios para um conhecimento legítimo. No prefácio à segunda edição da Crítica da razão pura (1787) Kant formula a metáfora da revolução copernicana através da qual passamos a saber que não é a terra o centro do sistema solar, o sol não gira entorno da terra e sim a terra é quem gira entorno do sol, como também o fazem todos os demais planetas de nosso sistema solar. Com esta metáfora, Kant diz, da mesma forma, que não é o sujeito que se orienta pelo objeto, mas é o objeto que é determinado pelo sujeito. “Sujeito” e “Objeto” para Kant passam a ser termos relacionais.

Kant também seria de alguma forma o iniciador desse questionamento científico e muitos de seus pensamentos éticos pautariam a contemporaneidade.

1.5. A crise da modernidade

Começamos aqui a crítica a todo este racionalismo científico desmedido. Filósofos como, Kant e Hegel foram talvez os bebês, (simpática esta analogia que faço, pois Kant é chamado de o velho Kant) depois alguns meninos como Schopenhauer, e mais tarde alguns jovens como Nietzsche que pode ser considerado “o pensador cuja crítica à tradição filosófica clássica e moderna foi mais marcante”, como diz Marcondes (2005, p.243).

Este jovem que agora já pode gerar filhos, os faz. Deixa alguns herdeiros com consciência e também inconscientemente. Nietzsche grande estudioso que foi, e como filólogo estudou toda a tradição filosófica. Analisa a passagem do pensamento mítico para o lógico-científico e diz que ali se perderam a proximidade com a natureza, e poderíamos dizer: as emoções trazidas pelo deus Dionísio e toda a embriaguez, dança, música. Este era o deus da natureza... em contra partida passa-se a valorizar o deus Apolo. O deus da racionalidade. Antes desta passagem estes “espíritos” se contrabalançavam, mas depois com a emergência da razão, Apolo prevalece em detrimento de Dionísio, que pouco a pouco é reprimido com tudo o que ele representa, o desejo, as emoções, os sentimentos, e tudo o mais.

Nietzsche critica quase todos os seus antecedentes filósofos, “zomba do racionalismo crítico moderno, de sua pretensão de fundamentar nosso conhecimento e nossas práticas. Um de seus alvos prediletos é Kant” como diz Marcondes (2005, p.244).

Portanto vários dos princípios da modernidade começam a ser questionados, não só por Nietzsche, mas também por Heidegger, entre outros, que de certa maneira procuram retomar o ser. Retomar a ontologia lá dos pré-socráticos. Especialmente Heráclito e Parmênides. Criticam a tradição filosófica e a modernidade onde o homem estava preocupado predominantemente com a ciência e o conhecimento. E agora estaríamos re-apontando uma renovada busca pela verdade, a busca originária do conceito grego de verdade (alétheia) no sentido de desvelamento do ser – descobrimento – “retirada do véu”.

Heidegger critica a sociedade industrial (uma das causadoras da modernidade) onde se predomina a ciência. E questiona estes valores e princípios modernos.

Como transcreve Marcondes (2005):

“A ciência não pensa.” A ciência e sua aplicação técnica seriam incapazes de pensar o ser, de pensá-lo fora da problemática do conhecimento e da consideração instrumental e operacional da realidade típicos do mundo técnico. Na verdade, o desenvolvimento de nosso modelo técnico e industrial é conseqüência precisamente do “esquecimento do ser” na trajetória da cultura ocidental. (p.267).

Precisamos nos lembrar que nós somos seres que nunca estamos prontos, somos diferentes de objetos como uma caneta, por exemplo. Ela está pronta. Tem seu objetivo, seu propósito, que é ser usada para escrever, está ali à nossa disposição e está acabada, está constituída. Michael Foucault é um dos filósofos que estuda como se forma a nossa subjetividade, o ente do presente. E questiona: Como somos formados? As instituições vão dizer como o sujeito é. As ciências humanas, por exemplo: médicos e psicanalistas começam a dizer o que é o homem. E assim nós vamos nos tornando o que pensamos ser, através da maneira que nos dizem que somos. É a relação Saber – Produção - o saber produzindo a “verdade”. Foucault vem questionar isto e diz: o que poderíamos ser? E não mais o que somos ou pensamos ser. Precisamos então lutar contra este saber científico?

Será que a ciência pode delimitar o que é, e o que não é conhecimento? O que é, e o que não é bom para o ente? Todo o conhecimento se dá pela razão? Pelo racionalismo?

Existem diversas áreas do saber na humanidade. Os conhecimentos poderiam ser considerados genericamente em quatro categorias: o conhecimento vulgar ou popular (como o nome diz, vem do povo, não tem base científica) o conhecimento filosófico (no dizer de Kant é o conhecimento racional a partir de conceitos), o conhecimento religioso (está no magistério da fé) e o mencionado conhecimento científico (racionalista empirista da modernidade – em pauta). Mas, acredito que, nenhum deles poder-se-ia intitular o dono da verdade! A verdade não estaria assim, em nenhuma dessas categorias isoladamente, mas em uma confluência entre elas ou entre algumas delas).

Freud veio com o inconsciente que quebra um pouco a racionalidade, diz que agimos muitas vezes com instrumentos que não são conscientes e portanto poderíamos chamá-los de intuitivos ou instintivos ou seja lá o nome que quisermos dar. O importante é que não poderíamos valorar, uma ou outra maneira de pensar e agir em detrimento desta ou daquela. Gostaria de me permitir colocar aqui uma expressão: porque devemos pensar sempre com a razão ou o racionalismo? A razão humana só tem uns 2500 anos, enquanto que a origem da humanidade, algo em torno de 2 milhões de anos...

Talvez precisássemos retomar um pouco Kant, criticar a nós mesmos, não como doutrina, mas como ethos, no sentido de uma atitude crítica da razão humana, com nossos limites, e dizer da impossibilidade de se ultrapassar este limite.

Retomamos a chamada crise da modernidade que se implanta algum tempo depois, isto ocorre principalmente após as duas grandes guerras mundiais, mais ainda, depois da segunda guerra, lá pelos anos 50, 60 e 70 com o desencanto destas tecnologias utilizadas nessas guerras, como: uso da bomba atômica e o próprio avião que tanto frustrou nosso querido brasileiro Santos Dumont e que vieram a dar o que deu com o seu mau uso ou uso para o mal, e em conseqüência disto surgem os movimentos anticultura.

Há também formas de se repensar a racionalidade, formas de se pensar a razão. A maneira como se pensa a razão muda historicamente. Por exemplo quando Descartes retoma o racionalismo - quando ele retoma Platão e Aristóteles - o faz de forma diferenciada, embora que ainda seja uma retomada do racionalismo. Isto se pode observar na relação sujeito – objeto que passa a ser considerada. Será que o que está ocorrendo hoje, também não seria uma retomada deste pensamento, de uma forma diferente novamente?

A “crise” seria portanto, um momento, uma fase da modernidade? Há vários autores, filósofos e sociólogos que se contrapõem nesta questão, mas pelo que parece uma das maiores questões em pauta é na verdade a retomada do sujeito em detrimento aos valores que foram levantados na modernidade, tais como: a ênfase na ciência e a questão do conhecimento, entre outros, e que agora, ao contrário, se passaria a valorizar a criatividade, a inspiração e o sentimento. Os valores estéticos passam portanto a tomar o lugar do científico, como observa Marcondes (2005, p.274).

Lyotard com sua obra A condição pós-moderna (1979) introduz o termo pós-modernidade e vem questionar: será que nós podemos pensar da mesma maneira que os modernos pensavam? Habermas por outro lado afirma: precisamos aprender com os desacertos do modernismo.

Conforme menciona Marcondes (2005):

Habermas polemizou com Lyotard, em um texto intitulado “A modernidade: um projeto inacabado” (1980), ao defender a validade das idéias do racionalismo e do Iluminismo, considerando-os de importância fundamental, sobretudo a teoria crítica em um sentido político e ético, para nosso contexto social. Trata-se de uma questão em aberto, ambas as posições encontrando adeptos e defensores; na realidade, refletindo a importância, neste final de século, de se pensar o papel da filosofia em relação ao projeto de sociedade que se construirá no futuro. (p.274).

Hoje poderíamos dizer que se re-modificou, mais uma vez, a forma, a maneira da racionalidade. Há várias pessoas pensando, visando um consenso. Esta seria uma virada da racionalidade? Como devemos entender esta crise da modernidade, seria “a modernidade em um analista fazendo análise”?

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Próximo tópico: Considerações finais e Referências Bibliográficas


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Ética, Ciência e a Crise da Modernidade



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Apresento mais uma serie de postagens, agora com este novo tema. Começamos com uma introdução e entramos nos tópicos: A Ética; e, A Ciência.

1.1. Introdução

Este texto tem como objetivo comentar a ética e a influência na ciência ou melhor a necessidade de se pensar esta ciência em termos éticos. Para isso utilizamo-nos como “pano de fundo” do período da modernidade e do que ocorre posteriormente: a chamada crise da modernidade.

Achamos pertinente comentar um pouquinho sobre ética, ciência e modernidade e refletir sobre esse racionalismo científico com ar de superioridade, a fim de ilustrar e facilitar ao leitor a compreensão sobre o tema e a importância de se buscar na ética o andamento da ciência.

Notamos nos dias de hoje várias instituições que se preocupam com um código de ética. Isso demonstra claramente a necessidade que a sociedade tem de “controlar” as medidas e atitudes das diversas profissões. Esse fato demonstra também uma ansiedade das pessoas umas com relação às outras. Será que podemos permitir que a ciência por exemplo, faça o que ela quiser? A ciência pode pesquisar o que ela quiser? Eles respondem: nós estamos pesquisando tal arma química, mas nós nunca vamos usá-la! Eu questiono: para que então desenvolver uma tal arma química se nunca vai ser usada? Eles retrucam: é apenas para evitarmos um ataque...(?)

Há um problema maior aí... muitos “desenvolvimentos” científicos não teriam nem mesmo o porquê de serem inicialmente questionados. Mas, infelizmente posteriormente foram usados na guerra e, pior ainda, desenvolveram-se outros “inventos” de avanços tecnológicos inimagináveis já propriamente para o uso militar, como é o caso dos aviões. E agora os super aviões de caça dos nossos dias; Além de uma infinidade de armas e mais armas, até biológicas... É então aí que devemos pensar a ética. Podemos “deixar” que a ciência faça o que ela quiser? Ou devemos questionar e refletir: o que estamos fazendo com o planeta? O que fazemos com a humanidade; e com as diversas vidas aqui existentes, que não conseguem mexer nem com um centésimo do que esta espécie chamada humanidade fez e faz com o planeta e com a própria vida?

1.2. A ética

É difícil falar sobre ética, pois é um tema um tanto quanto complexo. Poderíamos entendê-la de várias formas. Uma delas poderia ser como a busca ou caminho para ou pela “verdade” que de maneira mais complexa ainda, seria, talvez, e em algumas condições, subjetiva. Se relembrarmos da origem da filosofia na Grécia e depois, por exemplo, os sofistas, que através da retórica e do convencimento pelas palavras, da oratória, julgavam que “a verdade é resultado da persuasão e do consenso entre os homens”. Mas isso é combatido por Sócrates, Platão e Aristóteles, mais especificamente por Sócrates que os “combate” buscando o que julgava ser a essência da verdade através da razão e não do “simples” convencimento e consenso. Ele fazia isto através de perguntas básicas, feitas a diversos profissionais especialistas, tais como: ao sapateiro – o que é um sapato? Ao “juiz” - o que é a justiça? Ou o que é a verdade? E assim, a partir de um questionamento, buscava desvelar, através da razão e da lógica e não mais por um simples convencimento retórico, o que seria esta verdade.

Poderíamos dizer então que, de certa forma, Sócrates inaugura a ética dentro do discurso. Sócrates, como comenta Marcondes em Iniciação à história da filosofia (2005, p.40), seria “um divisor de águas. É nesse momento que a problemática ético-política passa ao primeiro plano da discussão filosófica como questão urgente da sociedade grega superando a questão da natureza como temática central;” pois a temática racionalista filosófica, inicialmente, era a natureza, iniciada por Tales de Mileto que buscava na própria natureza a explicação para ela própria, se afastando assim do mito em que tudo era explicado pelos deuses...

Temos aqui um pequeno histórico para entender a ética de forma mais concreta, permanente e universal. Como define Blackburn (1997) no dicionário OXFORD de filosofia. A ética tem como objeto o:

Estudo dos conceitos envolvidos no raciocínio prático : o bem, a ação correta, o dever, a obrigação, a virtude, a liberdade, a racionalidade, a escolha. É também o estudo de segunda ordem das características objetivas, subjetivas, relativas ou céticas que as afirmações feitas nesses termos possam apresentar. (p.129)

Também, Japiassú e Marcondes no dicionário básico de filosofia (2006), mencionam de maneira similar, mas com algumas particularidades, que a ética do grego ethike, diz respeito aos costumes e tem por objetivo “elaborar uma reflexão sobre os problemas fundamentais da moral (finalidade e sentido da vida humana, os fundamentos da obrigação e do dever, natureza do bem e do mal, o valor da consciência moral etc)” (p.97).

Assim teríamos a questão da subjetividade na ética, e a formação da própria sociedade interagindo entre ela e os indivíduos. A ética ajudando-nos a refletir sobre os costumes, sobre as práticas da ciência, da religião, da família, da empresa, em fim: em todas as instituições da sociedade. A ética nos ajuda a pensar a subjetividade. Que sujeito é esse em tal momento da história? Que sujeito é este hoje? Que “conhecimento” é este que buscamos pela ciência?

1.3. A ciência

A ética seria desta maneira então, intermediária, buscaria a justiça, a harmonia e os caminhos para alcançá-las. Quando buscamos, a justiça, a verdade, o entendimento e o conhecimento, o buscamos para satisfazer uma necessidade do sujeito. E, destes termos, gostaria de me ater ao conhecimento e mais precisamente ao conhecimento pela ciência, uma vez que podemos obter conhecimento por vários caminhos não só os científicos, aliás é até paradoxal dizer o que é ciência. “Karl Popper um dos filósofos que mais influenciaram a ciência em nosso século, chamou-o de “problema da demarcação”; O que é que distingue a ciência da não-ciência? Como podemos demarcar a fronteira entre elas?” Como citado por Appiah, (2006, p.123).

É importante também mencionar que a ciência deve ser entendida de maneira diversa, conforme o tempo em que a estudamos. O que chamamos de “conhecimento científico”, também, pode variar nos diversos períodos da história. Os casos são múltiplos. Na área médica, por exemplo, quando ouvimos uma voz científica dizendo: evite comer ou fazer tal coisa, que faz mal à saúde, e depois alguns anos mais tarde se contradizem dizendo que não é bem assim... pode comer sim!, Pode fazer sim! Porém isto não ocorre só na medicina, isto se passa nos diversos seguimentos da ciência. Será então que só a ciência teria a verdade? E esta verdade seria boa? Mas o que é a verdade?

Ouve épocas que uma certa disciplina era considerada como ciência (da forma que a concebemos) e que agora não o é mais. É o caso da astrologia que se difere totalmente da Astronomia, no entanto elas no passado se mesclavam. Também não cabe aqui questionar a validade de uma em detrimento da outra. Muitas vezes algum “astrólogo especifico acerta predições com bastante freqüência” e “é provável que as pessoas que lêem o horóscopo não se importem muito se eles são ou não científicos”, como diz Appiah , 2006 (p.122).

Outra questão, não menos importante, era saber que entre os parâmetros para definir o que é ciência, está ou estava a causalidade ou determinismo, quando diz que todos os eventos têm causas. Porém neste século passado recentemente findado, os cientistas argumentaram que o determinismo não é uma verdade. A teoria quântica, diz que há alguns eventos que não têm causas. A teoria fala em probabilidades. Se, para sabermos o que é científico precisávamos de uma causalidade e agora viemos a dizer que não, mas outrossim, que é uma questão de probabilidades, significa que algumas coisas não podem ser entendidas com as premissas cientificamente elaboradas no transcorrer do tempo e no passado, e quem sabe se no futuro não se dirá o mesmo do presente...

Partindo destes pré-supostos, poderemos entender melhor agora o que veio a ser a modernidade, a revolução científica ocorrida neste período e posteriormente, a crise da modernidade.

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No próximo tópico: A Modernidade e a Crise da Modernidade


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A estética mercantilizada na contemporaneidade (1.5.1)




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Na contemporaneidade as obras e a estética passam a ser mercantilizadas em vários aspectos na sociedade, não só nas obras de arte, como sabemos, pois esta teve várias fases e sempre dependia de alguma maneira dos “investidores” para que ela pudesse existir. Houve a época que eram as religiões, outras que foram os governos, e agora é, em muitos casos, o valor de mercado gerado pelo capitalismo.

Conforme comenta Chaui (2005)

Para que a autonomia das artes viesse a acontecer foi preciso que o modo de produção capitalista dessacralizas-se o mundo e laicizasse toda a cultura, lançando todas as atividades humanas no mercado. Isso significou, porém, que livres do poder religioso e do poder político, os artistas se viram a braços com o poder econômico. Ao se livrarem do valor de culto, as obras de arte foram aprisionadas pelo valor de mercado. (p.274).

Comento agora nestes dois próximos tópicos, um pouco sobre a beleza estética tanto na humanidade quanto em produtos de consumo e sua mercantilização.


1.5.2. Nos seres humanos

Vimos recentemente nos noticiários, que uma “modelo” veio a falecer vítima de anorexia porque se julgava fora dos padrões estéticos em sua categoria. Ela já estava magérrima com seus cerca de 40 kg e 1,74 metros de altura, mas se acreditava fora das “medidas”. Isto nos mostra com tal clareza o quanto é inescrupuloso tais pensamentos com relação à estética humana e sua mercantilização, que é formada por diversos e diferentes grupos, cada qual com seus “valores” estéticos e interesses econômicos.

É interessante relembrarmos que houve épocas que o padrão estético e de beleza estava nas “gordinhas”. Isto nos mostra que os valores humanos quanto à sua beleza variam com a época, e sabemos que dependem também da cultura de um certo povo, encontramos diversas culturas com padrões que, nós ocidentais, chamaríamos de esdrúxulos.
Mas o principal ponto que gostaria de destacar, é que na contemporaneidade se vê com toda a facilidade gente e mais gente. Humanos e mais humanos que entram em cirurgias e mais cirurgias estéticas em busca de uma perfeição apolínea. Não pretendo tecer opiniões quanto a isto, mas acho que a “industria da beleza” está bem satisfeita, e a cada dia, se lançam mais e mais cosméticos em busca dessa beleza... tanto quanto novas e mirabolantes “técnicas” de se fabricar esta tão esperada beleza estética humana. Esses humanos.... (!)


1.5.3. Nos produtos de bens de consumo

A mercantilização da estética se dá em vários aspectos da sociedade contemporânea como dissemos, não só na arte por essência, mas em diversos produtos que são feitos de maneiras a “encantar” este povo, tanto quanto nos produtos abstratos repassados pela televisão. Sejam eles programas inúteis, ou até mesmo jornalísticos disfarçados de úteis. Como diz Chaui a realidade parece fictícia e a ficção parece realidade.

Precisamos aqui fazer uma pequena distinção entre desejos e necessidades, esta é algo oriundo nos seres humanos, tais como: necessidade de alimento, locomoção, e comunicação por exemplo, mas para satisfazê-las não precisamos comer um caviar ou um pescado que custa centenas de euros em um restaurante francês, não precisamos de um automóvel de ultima geração para nos locomover, e para nos comunicar não precisamos de um celular ultramoderno, que o falar através dele, é o menos importante tão requintado que é este aparelhinho de nossos dias.

Tudo isto são desejos criados por uma “industria cultural” mercantilizada, em que se usa da estética e da tecnologia, para cada vez mais aprimorar o “embelezamento” dos produtos de consumo. Porém essas técnicas também vieram a facilitar a vida do homem moderno e do contemporâneo, não se pode negar a facilidade que se alcançou e se alcança com tudo isto. Mas é preciso se separar e distinguir o que é belo do que é simplesmente útil. E foi isto que começou a ocorrer desde o final do século XIX e durante o século XX. Mas muitas vezes podemos ver nos dias de hoje, e em todo lugar, coisas que unem o belo ao útil. Chaui (2005) diz

Os objetos produzidos com base no design indicam que foram concebidos com a preocupação de que, além de úteis, também sejam belos. No entanto, é possível distinguir entre esses objetos técnicos e as obras de arte.
A diferença entre obra de arte e os objetos técnicos está em suas finalidades: a obra de arte é expressiva, o objeto técnico, ainda que belo, é funcional. (p.277).

Como nos relembra Chaui, também é importante salientar que “as artes são vistas como trabalho da expressão e mostram que, desde que surgiram pela primeira vez, foram inseparáveis da ciência e da técnica.” (p.276).

Mas agora a aura é perdida através da reprodução técnica que, como nos diz Chaui, “permite a existência do objeto artístico em série e que, em certos casos, como na fotografia, no disco e no cinema, torna impossível distinguir entre o original e a cópia, isto é, desfaz as próprias idéias de original e cópia.” (p.279).

Isto ocorre também com todos os objetos de consumo que poderíamos chamar de “obras de arte vulgarizadas ou massificadas”, pois são o resultado de uma comoção mundial – refiro-me ao mundo ocidental capitalista - ao belo e útil, muitas vezes com até mais beleza do que utilidade propriamente dita, mas que emocionam, que apaixonam as pessoas a adquirirem tais produtos dotados de tanta beleza e tecnologia que na realidade tornam-se objetos para serem contemplados admirados e muitas vezes pouco utilizados em sua plena totalidade.

Estes produtos são feitos em série para as pessoas que os adquirem ou seja a massa. Como nos diz Chaui massa “É um agregado sem forma, sem rosto, sem identidade e sem pleno direito à cultura” (p.291). Ou seja pensa-se estar adquirindo este ou aquele produto para se sentir dentro de um grupo social e de certa maneira ser diferente e personalizado, mas na verdade se é massa, ou seja é coisa que não se distingue. É a massa “inculta”. Pois a industria cultural, introduz a divisão social entre elite “culta” e esta massa “inculta”.

Em conseqüência temos a idéia de mass media ou os meio de massa que são utilizadas pela televisão e pelos diversos meios de comunicação. A mídia como é usada no Brasil, é o moldador desta massa. Se há massa é necessário “moldá-la”.

Como há pessoas para adquirem tantos produtos e cada vez mais produtos são lançados e a indústria não pode parar de produzir – pois faz parte da engrenagem capitalista – não há o interesse em se fabricar produtos duradouros, ao contrário estamos na era dos produtos descartáveis. Estamos na sociedade pós-industrial ou pós-moderna, é a “sociedade do descarte” como nos diz Chaui. Para fazer um trocadilho com o nome do nosso grande pensador que talvez tenha dado início a todo um modernismo que vem desaguar onde nos encontramos hoje, ou seja, Descartes; pois bem, será que ele poderia imaginar o que viria a ocorrer no século XX ou XXI, e o sentido desse trocadilho em português? O filósofo Descartes e a “sociedade do descarte”.(?)

Tudo é produzido para uso temporário e imediato, não se vende mais o produto necessário e útil, mas os desejos criados pela mídia. Os produtos são mais “belos” do que úteis. Mais desejado pelo inventivo status que apresentam, como sucesso, prosperidade, segurança, juventude, beleza pessoal, atração sexual, do que pela real necessidade do sujeito que aqui não é sujeito é massa.

O marketing portanto elabora a criação dos desejos nesta massa, eticamente ele deveria identificar a necessidade e os desejos das pessoas e ai sim criar produtos para satisfazer esta necessidade e estes desejos. Assim na verdade o que temos são indivíduos que se tornam produtos. Vejamos e pensemos o tanto de coisas que carregamos quando saímos para trabalhar e até mesmo para o lazer, por que precisamos de tantas coisas? E o pior, tem que ser de tal marca.

A imagem passa a nos perseguir. Como somos mercadorias ambulantes, como nos diz Chaui (2005)

A propaganda passa a estimular imagens de indivíduos vencedores na competição instituída pelo mercado de trabalho: roupas, calçados, bolsas e pastas de grife, sabonetes, perfumes e desodorantes que sugerem requinte e glamour, cosméticos de marcas famosas, etc., passam a constituir o próprio corpo do individuo, formam sua imagem como uma espécie de segunda natureza ou de máscara colada em sua pele. (p.295).

É aí também que se tem a idéia de dividir a sociedade em classes sócias e os programas de mídia, radio, televisão, jornal, revistas entre outros passem a programar seus horários e interesses de acordo com os patrocinadores e os vendedores destes “produtos” nos dois sentidos: tanto os produtos fabricados no próprio sujeito como os para pôr neste produto fabricado chamado “sujeito”. De acordo com seus interesses.

Como nos diz Chaui, nós precisamos ser mantidos infantis e desta forma mais desejos de satisfações constantes, em outras palavras, precisamos toda hora de uma “balinha” de um docinho como crianças insaciáveis e pior sem maturidade. Não é interessante que reflitamos, que tenhamos críticas.

Diferentemente do que a obra de arte, que nos faz refletir, pois é necessário um trabalho sensorial para compreendê-la, amá-la, criticá-la, nos produtos industriais em série e condicionados em nossa mente não com seus “valores” intrínsecos mas seu “valor” de imagem, não é necessário nenhum esforço. É sem dúvida mais fácil se alcançar os objetivos da mídia desta maneira.

Como comenta Chaui (2005)

Como os meios de comunicação nos infantilizam, diminuem nossa atenção e capacidade de pensamento, invertem realidade e ficção e prometem, por intermédio da publicidade, colocar a felicidade imediatamente ao alcance de nossas mãos, acabam nos transformando num público dócil e passivo. (p.299)

Entendemos assim porque produtos e mais produtos nos fascinam tanto. Diferentemente de obras de arte sublimes e que exigem de nossa mente tanto esforço para compreendê-la, pois como somos doutrinados ou adestrados para de tal forma não entendê-la, ou não se interessar por ela, será que precisamos, portanto, nos libertar desta caverna, como alegoricamente colocou Platão?

1.6. Comentários finais

Fizemos uma pequena viagem no mundo da arte e da estética... passamos por alguns períodos e fases deste mundo.

Como vimos atravessamos de um período das obras religiosas, às políticas e agora temos as obras ou produtos mercantilizados - como procuramos enfatizar - pautado na estética e no design, e nos produtos ou programas inventados pela mídia televisiva.

Ninguém nos ensina a ver, diferentemente de outros aprendizados como a ouvir e falar por exemplo. A “ver”, ninguém acha necessário ensinar, será que isso está certo? Ou nós precisaríamos aprender a ver? E assim talvez veríamos e distinguiríamos o que é arte do que é puramente produção para simples mercantilização, ou pior, manipulação.

Estamos tão envolvidos e dentro desta “obra” que na verdade esquecemos que somos uma massa e somos modelados para fazer parte desta obra, embora não consigamos perceber isto, e isto se justifica a partir do momento que, como estamos dentro, não podemos ver, pois seria necessário que saíssemos de dentro dela para olhar de fora. É como querer fotografar o planeta Terra estando aqui no chão, não é possível! Precisamos ir ao espaço para vê-la por completo...

Seria então interessante desapegarmo-nos um pouco desta funesta “obra” em que estamos envolvidos e olhando de fora nos libertar da caverna mercantilista na qual estamos presos e enclausurados.

Poderíamos dizer para finalizar que devemos fazer da nossa vida uma obra de arte e não da arte mercantilizada em produtos e serviços a nossa vida.

Abraços do
Benito Pepe, visite meu novo site, Clique Aqui!



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E BIBLIOGRAFIA

BELTRÃO, Maria da Conceição de Moraes Coutinho. Ensaio de arqueologia: uma abordagem transdisciplinar. 1.ed. Rio de Janeiro: ZIT Gráfica e editora, 2000, 184p.

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de filosofia. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, 437p.

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 13.ed. São Paulo: Ática, 2005, 424p.

__________. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles, volume 1. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, 539p.

ENCICLOPÉDIA, Barsa. Rio de Janeiro – São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações, 1994. V. 7, p.184-186.

______________, Mirador Internacional. Rio de Janeiro – São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações, 1994. V. 8, p.4212-4218.

JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 4.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006, 309p.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 9.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, 298p.

KANT, Immanuel. Textos seletos. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 2005, 107p.


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“Pinceladas” destes períodos da arte (1.3)


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Escrevo agora, neste pequeno tópico, às vezes de forma um pouco fragmentada. Isto se dará de propósito, faz parte de um estilo, e retrata um período da história da filosofia da arte, e também representa algumas das minhas anotações.

Para Platão, como nos relembra a Enciclopédia Mirador (1994) o belo era aquilo que imitasse da melhor maneira possível tudo o que estava no “mundo das idéias” assim quando um marceneiro fazia um móvel:

Precisava da idéia desse móvel, modelo invariável verdadeira realidade porque não muda, não perceptível pelos sentidos, mas apreensível pela inteligência. Ora se o móvel é apenas cópia imperfeita do modelo ideal, o quadro que do móvel poderá fazer o pintor não passará de imitação da imitação, cópia da cópia, mais imperfeito ainda, porque reprodução da aparência. (p.4212).

Portanto, para Platão, a arte era apenas uma imitação de uma aparência que produzia somente a ilusão de uma realidade. Pois, para Platão, como podemos ver na alegoria da caverna, nós estamos presos, acorrentados, nesta caverna (o mundo material) e não conseguimos contemplar a luz do dia, a luz do sol, verdadeira realidade que só alcançamos após a morte, no mundo das idéias.

Já com Aristóteles, discípulo de Platão, mas filósofo que após a morte deste, começa a implementar sua própria filosofia, a essência da beleza e da arte está na imitação das coisas reais.

Aristóteles considerava belo tudo que tivesse “certa grandeza e ordem” em suas reflexões sobre a arte era necessário limite, ordem e simetria.

“Em 1753, o teórico Baumgarten introduz o termo estética para designar um ramo da filosofia relacionado à essência e à percepção do belo e do feio. Em 1790, surge a Crítica da faculdade de julgar, de Kant.” (Sinopse das aulas – Rosana Suares – 2006, p.6).

Em Kant, encontramos o desenvolvimento do embrião da estética tal como a entendemos hoje, disciplina filosófica independente. Para ele a satisfação só é estética quando gratuita e desligada de qualquer interesse. Como já mencionamos, o belo para Kant é universal. Distingue o belo do agradável. Para Kant o homem que se pauta na arte é pacífico.

Como dissemos, Kant distingue o belo do agradável. Conforme a Mirador (1994)

Enquanto o juízo referente ao agradável supõe o prazer provocado pelo objeto, o juízo estético, ao contrário, é anterior ao prazer e o determina. O objeto só é agradável porque causa prazer, ao passo que é a beleza do objeto que emociona e provoca o prazer estético. (p.4213).

Utilizarei um pouco, este sentido estético de Kant ao comentar, mais à frente, sobre a questão estética nos produtos de consumo.

Para Hegel o belo artístico não está na natureza, ou na simples imitação dela, mas sim nas obras criadas pelos homens, se o artista “apenas” imitasse a natureza não a ultrapassaria, não lhe seria superior. É portanto essencial que o artista produza com o espírito e assim participe da verdade, pois só o espírito é verdadeiro. Conforme relembrado na Mirador, no verbete correspondente à estética.

Mas de qualquer maneira estaremos limitados pela matéria, por isso a arte é limitada por ela mesma.

Nietzsche procura interpretar o sentido da cultura grega, em relação com os espíritos Apolíneos, representados pela escultura, e o de Dionísio, pela música, pela embriaguez, pela emoção, em detrimento de um pensamento mais racionalista apolíneo. Assim o artista deve ter uma relação consigo mesmo.

Lembramos que a arte no período moderno começa com os repetidores de Aristóteles na poética e depois vai perdendo a força e o receituário vai mudando-se. Até atingir-se a sua nova natureza.

Como vimos. Antes, com Platão, o belo estava no mundo das idéias, em Aristóteles o belo estava no objeto. Em Kant está em uma relação entre o sujeito e o objeto. Depois passamos a uma visão diferenciada em Nietzsche que diz que o belo está em uma relação do artista com ele mesmo.

De qualquer forma há alguns pontos comuns desde Sócrates ou Platão até a atualidade, conforme comentado no verbete da enciclopédia Barsa (1994):

1. Na contemplação desinteressada de um objeto, o homem tem certas percepções sensíveis a que chama de estéticas ou de belas.

2. Toda a experiência estética é valorizada por si mesma e não por alguma verdade filosófica, científica, religiosa ou política que possa conter ou por alguma influência que venha a exercer na conduta humana.

3. A pesar dessa experiência se situar no terreno das emoções, paixões e percepções, como seus elementos constitutivos, é contudo capaz de constituir uma válvula de escape nas suas grandes tensões pela contemplação mental de seus aspectos mais humanos.

4. Não se pode pensar no belo ou no valor estético como uma qualidade ou uma propriedade intrínseca de um objeto físico, mas somente como uma relação do modo de ser ou de uma qualidade do objeto com a sensibilidade.

5. Quando se fala em bom gosto, autênticas experiências estéticas, não se pode deixar adulterar-se por desejos e moda do momento. O mau gosto se revela na incapacidade de experimentar experiências estéticas ou de só experimentá-las deturpadas por interesses pessoais ou por falta de imaginação.


1.4. Do clássico ao moderno e ao contemporâneo da estética

Na antiguidade tínhamos os artesãos que produziam obras poéticas ou líricas, tínhamos as obras sacras consideradas a própria imagem dos deuses gregos... ou melhor... eles estavam vivos nelas.

A arte muda com a tecnologia possível e a cultura de cada época, mas fica sempre uma técnica, uma maneira de se fazer algo. Por exemplo, as milenares pinturas rupestres em cavernas na França e mesmo no Brasil como são mencionadas por Beltrão (2000) podem datar da mesma época, ou seja, cerca de 30.000 anos. E é interessante que, neste caso, tem as mesmas características representando animais pleistocênicos e conhecimentos de astronomia, ainda que estejam tão distantes uma da outra (p.87).

Quanto à “evolução” tecnológica ou a forma de se fazer arte, poderíamos comentar, além das pinturas rupestres tão remotas, as estátuas gregas, as famosas pinturas em paredes e quadros da renascença, o advento da fotografia, que começa no preto e branco. E do cinema que da mesma forma evolui, e, talvez hoje, seja a maneira mais popular, juntamente com a televisão, de se transmitir a “arte”.

Sem dúvida a tecnologia e o avanço científico influi na arte e na maneira de se fazer arte, mas é interessante mencionar que de qualquer jeito, apesar do que nos trouxe toda esta parafernália tecnológica, não se deixou de vivenciar as representações mais antigas da bela arte. Por exemplo, ainda hoje podemos apreciar belas estátuas – ainda que com outros olhos - belos quadros também podem ser vistos, apesar de termos a fotografia, aliás podemos apreciar fotos preto e branco como verdadeiras obras de arte, apesar de termos fotos coloridas; contudo continuamos a apreciar as fotografias apesar de facilmente podermos filmar tudo. pretendemos dizer que a arte também é, de certa maneira, e apesar de tudo o que esteja à sua volta, algo transcendental, algo emocional, subjetivo e algo eterno e independente da própria tecnologia.

Mas, da mesma maneira, a estética modifica-se com a tecnologia, contudo mantém algo do “passado” em suas raízes. Como dissemos o principal objetivo da estética em produtos de consumo é emocionar o comprador, é fazer com que ele possa se encantar, encontrar mais do que procura no produto, e desta forma ele passe a ser o maior divulgador desta “obra de arte”, como dissemos, nós sentimos a “necessidade” de compartilhar nossos sentimentos sobre o belo ou o que achamos belo, estético. Veremos mais à frente a influência deste “boca a boca”, da mídia e de outras formas de marketing na arte mercantilizada de nossos dias.

É preciso também entender a arte de outra maneira, referir-me-ei aos produtos de uma indústria cultural, aí temos produtos em série e de consumo rápido no mercado da moda e nos meios de comunicação de massa por exemplo, tanto quanto uma diversidade de outros produtos que pautam a estética como um ferramental a mais para a venda.


Referências bibliográficas

BELTRÃO, Maria da Conceição de Moraes Coutinho. Ensaio de arqueologia: uma abordagem transdisciplinar. 1.ed. Rio de Janeiro: ZIT Gráfica e editora, 2000, 184p.

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de filosofia. 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, 437p.

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 13.ed. São Paulo: Ática, 2005, 424p.

__________. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles, volume 1. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, 539p.

ENCICLOPÉDIA, Barsa. Rio de Janeiro – São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações, 1994. V. 7, p.184-186.

______________, Mirador Internacional. Rio de Janeiro – São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações, 1994. V. 8, p.4212-4218.

JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 4.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006, 309p.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 9.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, 298p.

KANT, Immanuel. Textos seletos. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 2005, 107p.


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